Geralmente, quando se fala na história do nosso município, parte-se das descobertas de ouro nas minas do rio de Contas, entre 1715 e 1720. No entanto, as terras que pertenceriam a Paramirim, desde o século XVII, faziam parte de uma grande sesmaria, a Casa da Ponte, do mestre-de-campo Antônio Guedes de Brito. A Casa da Ponte era uma “espécie” de feudo pecuarista.

Nesse contexto, a bacia do Paramirim, encaixada entre a Serra Geral e a Chapada Diamantina, era um importante corredor de fazendas criadoras de gado bovino (PINHO, 2007). Segundo o relato de Joaquim Quaresma Salgado  ─ que, em 1733, percorreu todo o vale do Paramirim ─, essas fazendas pertenciam a arrendatários de Joana Guedes Brito, neta do supracitado mestre-de-campo (Figura 1).
Figura 1: Caminhos do Sertão – Trajetos de Boiadeiros, Mineradores e Tropeiros – Sec. XVII, XVII e XIX.

Dessa maneira, a pecuária, não a mineração, foi o pontapé inicial para o povoamento do nosso município. No entanto, nossos primeiros povoados, freguesias e vilas só surgiram com o auge da mineração. Por que? Enquanto a pecuária extensiva, pautada na itinerância da boiada, era uma atividade dispersora de população, a mineração, por centrar sua produção em locais específicos, favorecia a aglutinação de indivíduos. Como consequência, surgiram as vilas de Santo Antônio de Jacobina (atual Jacobina), Minas do Rio de Contas (atual Rio de Contas), Vila Nova do Príncipe (atual Caetité), para citar algumas.Por volta de 1840, com a decadência das minas do rio de Contas, alguns garimpeiros desceram a Serra das Alvas, pelas margens do rio Paramirim, e encontraram um veio aurífero no local designado por Morro do Fogo. Aí, um aglomerado humano surgiu e alcançou algum progresso. Em vista disso, em 1843, é fundada a Freguesia de Nossa Senhora do Carmo do Morro do Fogo, dentro dos limites do município de Minas do Rio de Contas.Com o passar do tempo, o ouro do Morro do Fogo se esgota. Como consequência, muitos mineradores se instalaram em fazendas ao longo do rio Paramirim. Se, no século XVIII, a economia aurífera impulsionava a criação de núcleos populacionais, a partir da segunda metade do século XIX, surgem no Alto Sertão baiano as vilas agroprodutoras. Água Quente era uma delas.Devido ao progresso de Água Quente, em 1978, cria-se o município homônimo, desmembrado de Minas do Rio de Contas. No entanto, em 1881, esse município é extinto e novamente anexado a Minas do Rio de Contas. Nove anos depois, 1890, o município de Água Quente é definitivamente restaurado (Figura 2), avizinhando-se com os municípios de Bom Sucesso (atual Ibitiara), Macaúbas, Caetité, Minas do Rio de Contas (atual Rio de Contas) e Bom Jesus (atual Piatã).
Figura 2: Condição territorial do município de Paramirim entre os anos de 1890 e 1911.

O Arraial dos Ribeiro foi fundado por Antônio Ribeiro de Magalhães. Este senhor foi muito inteligente na escolha da localização da sua fazenda. Assentou-a na depressão, abaixo das elevações do Morro da Estrela e da Serra do Cruzeiro, terrenos compostos por aluviões deixados pelo trabalho erosivo do rio Paramirim, portanto, de natureza muito fértil. Também, diferente de Água Quente, o Arraial dos Ribeiros estava situado em um ponto de passagem das boiadas e dos viajantes (vide Figura 1). Logo, o Arraial se transforma num importante entreposto, alcançando um crescimento acelerado. Isto justifica sua elevação, em 1881, à categoria de freguesia, com o topônimo de Santo Antônio do Paramirim. Em 1902, quatro anos após a restauração do município de Água quente, a sede do município foi transferida para a Freguesia de Santo Antônio do Paramirim, automaticamente elevada à categoria de vila. Em 1909, a sede e o município recebem o topônimo de Paramirim. Na divisão administrativa de 1911, o município aparece composto pelos distritos: sede (Paramirim), Santa Maria do Ouro, Água Quente e Canabravinha (vide Figura 2). Em 1938, dois fatos interessantes veem à tona: a sede do município é elevada à categoria de cidade e o distrito de Santa Maria do Ouro passou a denominar-se Ibiajara. Em 1953, cria-se o distrito de Rio do Pires. Segundo a divisão territorial de 1955, o município estava constituído pelos distritos de Paramirim (sede), Água Quente, Canabravinha, Ibiajara e Rio do Pires (Figura 3). Figura 3: Condição territorial do município de Paramirim entre as décadas de 1950 e 1960.

Entre 1961 e 1962, Paramirim têm sua primeira perda territorial. Os distritos de Rio do Pires e Ibiajara são desmembrados para formar o município de Rio do Pires. O mesmo acontece com o distrito de Água Quente. Assim, nosso município, que possuía uma área de 3.070 Km², a partir das referidas datas, teve a superfície do seu território reduzida para 1.615 Km ². Em 1963, o município estava composto apenas pelos distritos de Paramirim e Canabravinha (Figura 3). Em 1989, Paramirim cede 279 Km² para a composição do território do município de Caturama, que estava se desmembrando de Botuporã (Figura 4). Com o passar dos tempos, Paramirim continua a perder território para seus vizinhos. Por exemplo, o povoado de Santarém, que já pertenceu a Paramirim (Figura 4), nos 1990 foi incorporado à administração de Érico Cardoso (ex-Água Quente). Em 2007, Paramirim recupera parte dos territórios de Caturama.  Figura 4: Condição territorial do município de Paramirim entre os anos 1995 e 2017.

O Fato mais curioso aconteceu em 2013, quando Paramirim e Macaúbas perderam grandes frações dos seus territórios. O primeiro, para Caetité; o segundo, para Riacho Santana. Segundo os municípios beneficiados, essas terras já eram administradas por suas prefeituras, apesar de legalmente não pertencerem a suas jurisdições. Onde está a relevância da perda ou do ganho de território? Com a conquista territorial vem o ganho populacional. Quando a população de um município cresce, seu status perante o Fundo de Participação Municipal (FPM) é alterado. Isso amplia as verbas repassadas a esse município.Essas constantes perdas territoriais segue uma tendência nacional. Com o avançar da urbanização, muitas vilas alcançam a condição de sediar municípios; assim, são feitos novos desmembramentos. Quanto maior a densidade demográfica de uma região, menor o tamanho dos municípios, vejam o exemplo do litoral da Bahia, onde é possível encontrar municípios com apenas 32 Km² de área (Madre de Deus).O caso de Paramirim tem um aspecto curioso. A perda territorial se contrasta com um promissor processo de expansão da zona urbana. Nosso município tem duas frentes de urbanização: uma, situada na sede do município, e outra na localidade de Caraíbas. Hoje, a população urbana de Paramirim já corresponde a quase 50 % da população total. Ao contrário da estimativa do IBGE, que não leva em consideração processos migratórios, eu prevejo que dentro de dez anos a população urbana de Paramirim corresponda a 60 % da população total. Num futuro próximo, Paramirim será um município mais urbano… Isto será tema de um próximo texto. Quem viver, lerá!

Ricardo Kassius

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1 Licenciado em Geografia (UFBA) e estudante do Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFBA (mestrado). 

2  Me posiciono de acordo com Raymundo Faoro. Não acredito que tenha existido feudalismo no Brasil. O que se instalou no Brasil, juntamente com a colonização portuguesa, foi um sistema patrimonialista, que sempre influenciou nossa política. O maior exemplo de patrimonialismo encontramos na atual Assembleia Legislativa, cujos deputados tratam nosso país como uma propriedade de suas famílias. 

3 DELGADO, J. Q. Derrotas das cabeceiras do rio Verde até a sua barra e dahí ao Arraial dos Morrinhos e delle correndo o rio São Francisco até a barra do Paramirim acima até a Fazenda do Riacho de Santa Apolonia e da Fazenda Correndo… In: NEVES, E.; MIGUEL, A. (Org.). Caminhos do Sertão: ocupação territorial, sistema viário e intercâmbios coloniais dos Sertões da Bahia. Brasil: Editora Arcadia, 2007.

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