No Oriente Médio, a escalada militar já matou dezenas de milhares, espalha fome, sede e medo, e aproxima o mundo de uma tragédia humana capaz de atravessar gerações

O Oriente Médio vive neste momento uma combinação explosiva de guerra aberta, colapso humanitário e risco de desastre regional. Em Gaza, a ONU cita dados do Ministério da Saúde local segundo os quais mais de 72 mil palestinos já foram mortos e mais de 171 mil ficaram feridos. A UNICEF afirma que mais de 64 mil crianças foram mortas ou feridas e que mais de 56 mil perderam um ou ambos os pais. A Organização Mundial da Saúde informa que os hospitais continuam funcionando sob escassez extrema de remédios, insumos e combustível, enquanto evacuações médicas permanecem suspensas desde o fim de fevereiro.

A guerra também se alastrou. Nos últimos dias, a crise regional entrou em uma fase mais perigosa, com confrontos envolvendo Irã, Israel, Estados Unidos e seus aliados, enquanto o Líbano volta a sofrer bombardeios pesados. A Reuters informou que mais de 800 mil pessoas foram deslocadas no Líbano desde o início da nova escalada de março de 2026 e que os ataques israelenses já mataram ao menos 850 pessoas no país. A ONU alertou que essa expansão da guerra já começa a prejudicar cadeias globais de ajuda humanitária, encarecer energia, dificultar transporte e afetar a chegada de socorro a outros países em crise, como Sudão e Somália.

O ponto mais assustador, porém, talvez não seja apenas o número de bombas, e sim o que pode acontecer se a guerra atingir em cheio a infraestrutura de água. Existem fortes indícios de um plano arquitetado pelos Estados Unidos e por Israel para atacarem estações dessalinadoras, sinais claros de risco real. A Associated Press relatou que a guerra já chegou perto de grandes instalações de dessalinização no Golfo, que o Irã afirmou que um ataque americano danificou uma usina em Qeshm, cortando o abastecimento de cerca de 30 aldeias, e que Bahrein e Kuwait registraram danos associados a ataques ou destroços perto desse tipo de estrutura. O alto comissário da ONU para direitos humanos também mencionou a interrupção de água para pelo menos 30 vilarejos iranianos após ataque a uma planta dessalinadora.

Esse perigo é gigantesco porque, em vários países da região, a água que sai da torneira depende do mar virar água potável por tecnologia industrial. Segundo a Associated Press, cerca de 90 por cento da água potável do Kuwait vem da dessalinização, assim como cerca de 86 por cento em Omã e aproximadamente 70 por cento na Arábia Saudita. A mesma reportagem diz que mais de 90 por cento da água dessalinizada do Golfo vem de apenas 56 plantas e recorda uma análise da CIA segundo a qual a destruição dessas instalações poderia provocar crises nacionais em poucos dias. Um antigo cabo diplomático americano citado pela AP dizia que Riad poderia precisar ser evacuada em uma semana se uma grande planta saudita e sua infraestrutura associada fossem seriamente atingidas.

Traduzindo para a vida comum, atacar água numa região desértica não é apenas destruir canos e máquinas. É desligar hospitais, cozinhas, abrigos, escolas, redes de saneamento e a própria possibilidade de permanência humana. Sem água potável, chegam a sede, as infecções, a diarreia, o colapso das unidades de saúde, a falta de higiene, o encarecimento brutal dos alimentos e o deslocamento em massa. Em Gaza, onde a crise hídrica já é gravíssima, a UNICEF e a OMS vêm alertando há meses para a combinação letal entre falta de água, desnutrição, doença e destruição do sistema de saúde. Se esse modelo de devastação alcançar em cheio as grandes plantas do Golfo, o resultado pode ser uma catástrofe civil em escala regional, com milhões de pessoas expostas em poucos dias.

Pelo direito internacional humanitário, esse tipo de ataque cruza uma linha gravíssima. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha registra como regra consuetudinária a proibição de atacar, destruir ou inutilizar objetos indispensáveis à sobrevivência da população civil. O texto do Protocolo Adicional I das Convenções de Genebra cita explicitamente instalações e reservas de água potável. Em outras palavras, transformar a água em arma de guerra não é apenas desumano. É uma violação central das leis da guerra.

É aqui que mora o tamanho moral da tragédia. Quando uma guerra passa a ameaçar a água de populações inteiras, ela deixa de ser vendida como operação militar de precisão e revela seu rosto mais bruto. Não cabe tratar isso com eufemismo. Atingir ou arriscar atingir sistemas que mantêm milhões vivos é flertar com um nível de devastação que remete aos capítulos mais sombrios do século 20. A palavra genocídio tem peso jurídico e histórico próprio, e sua caracterização formal depende de investigações e tribunais. Mas, do ponto de vista humano, a ideia de condenar civis à sede, à doença e ao êxodo em massa é uma brutalidade que o mundo civilizado deveria reconhecer antes que seja tarde demais.

A estupidez da guerra está justamente nisso. Ela começa com discursos sobre segurança e termina mexendo no copo d’água de uma criança, no soro de um hospital, no banho impossível de uma família deslocada, no preço do pão do outro lado do planeta e no medo de um mundo que já não consegue separar fronteiras de consequências. O Oriente Médio está queimando, mas a fumaça política, econômica e moral desse incêndio não vai parar ali. Onde a água vira alvo, a humanidade inteira perde.