Entre gestos simbólicos, disputas de narrativa, articulações silenciosas e rumores de corredores, a corrida pelo Palácio de Ondina começa a ganhar temperatura antes mesmo da largada oficial

A pré-campanha para a sucessão estadual na Bahia segue produzindo capítulos que vão muito além dos discursos oficiais. Nos corredores do poder, nos grupos políticos e nas rodas de conversa da capital e do interior, os bastidores têm sido tão comentados quanto as agendas públicas dos principais personagens da disputa de 2026.

Nos últimos dias, um episódio inesperado envolvendo a aeronave que transportava ACM Neto acabou produzindo um curioso embate de narrativas. Enquanto aliados ainda assimilavam o susto provocado pelo incidente aéreo, o governador Jerônimo Rodrigues rapidamente utilizou as redes sociais para manifestar solidariedade ao adversário político. O gesto foi interpretado por aliados como uma demonstração de humanidade e equilíbrio, características que o governador busca consolidar junto ao eleitorado.

Entretanto, a repercussão positiva da manifestação acabou dividindo espaço com declarações do ministro da Casa Civil, Rui Costa. Conhecido pelo estilo direto e pouco afeito a gestos protocolares, Rui minimizou o episódio e levantou interpretações políticas sobre os desdobramentos da agenda de Neto. Nos bastidores, a avaliação de observadores é que a fala acabou criando um contraste involuntário entre a postura conciliadora adotada por Jerônimo e o perfil mais duro do ex-governador.

O incidente também produziu histórias curiosas que rapidamente se espalharam pelos meios políticos. Relatos de momentos de tensão dentro da aeronave deram origem a comentários sobre quem manteve a serenidade e quem demonstrou maior apreensão durante o voo. Como ocorre tradicionalmente na política baiana, fatos sérios acabaram misturados a narrativas quase folclóricas, ampliando ainda mais o interesse em torno do episódio.

Outro assunto que movimentou os bastidores foi o famoso cozido promovido pelo senador Angelo Coronel antes da viagem. O encontro reuniu lideranças de diferentes correntes políticas e, após o susto aéreo, ganhou contornos de superstição entre parlamentares e assessores. Houve quem brincasse que a refeição serviu como uma espécie de amuleto da sorte para os passageiros. Na política, onde simbolismos costumam ter tanto peso quanto fatos concretos, o episódio virou tema recorrente nas conversas reservadas.

No campo da direita, a visita do senador Flávio Bolsonaro à Bahia Farm Show também gerou repercussão. João Roma buscou aproveitar a passagem do aliado nacional para reforçar sua presença política, acompanhando de perto praticamente todas as atividades do parlamentar. A movimentação rendeu comentários bem-humorados entre lideranças presentes, que passaram a se referir aos dois como “sombras”, em referência à proximidade constante durante a agenda.

Enquanto isso, na base governista, um tema chamou atenção pela forma como foi conduzido. A oficialização da indicação de Camila Vasquez, esposa do deputado federal Mário Negromonte Júnior, para o Tribunal de Contas dos Municípios surpreendeu parte dos parlamentares estaduais. Segundo relatos de bastidores, alguns deputados afirmaram ter tomado conhecimento da decisão pelos veículos de comunicação. O episódio alimentou discussões sobre a comunicação interna da base e sobre os critérios políticos utilizados na construção dos espaços de poder.

Também chamou atenção a ausência de algumas das principais lideranças do grupo governista em eventos recentes do Programa de Governo Participativo. Embora justificadas por compromissos institucionais, as ausências acabaram gerando especulações típicas do período pré-eleitoral. Em momentos como este, qualquer cadeira vazia costuma render interpretações que vão muito além da realidade dos fatos.

Do lado da oposição, comentários atribuídos ao senador Angelo Coronel sobre dificuldades eleitorais e sobre a intensa agenda de ACM Neto no interior reforçam a percepção de que a disputa ainda está longe de apresentar um cenário definitivo. Entre provocações, ironias e versões desencontradas, o que se percebe é que todos os grupos já estão atentos aos movimentos dos adversários.

A verdade é que a sucessão baiana entrou naquela fase em que os fatos concretos dividem espaço com rumores, gestos simbólicos, leituras estratégicas e muito folclore político. Em tempos de pré-campanha, cada declaração ganha peso ampliado, cada ausência gera especulações e cada encontro reservado transforma-se em combustível para novas narrativas.

Se ainda é cedo para apontar vencedores ou derrotados, uma conclusão já parece inevitável. A corrida pelo Palácio de Ondina começou muito antes do calendário eleitoral e os bastidores prometem continuar tão movimentados quanto os palanques que serão montados nos próximos meses.