No 2 de Julho, data da Independência da Bahia, uma reflexão sobre os interesses do povo, entre a promessa de uma das maiores obras de infraestrutura do país e a dura realidade das filas da regulação, da falta de hospitais, estradas e oportunidades no interior baiano

Neste 2 de Julho, quando a Bahia celebra sua Independência e relembra a força de um povo que lutou por liberdade, talvez também seja oportuno refletir sobre outro desafio que permanece atual, qual Bahia estamos construindo para as futuras gerações. Esta não é uma reflexão partidária, tampouco um convite à disputa política ou à influência sobre o voto de qualquer cidadão. Trata-se de um exercício de cidadania voltado aos interesses do povo baiano, especialmente daqueles que vivem no sertão e convivem diariamente com dificuldades que ainda desafiam o desenvolvimento regional.

O anúncio do início das obras da Ponte Salvador Itaparica, empreendimento estimado em aproximadamente R$ 11,6 bilhões e incorporado ao Novo PAC, recoloca no centro do debate uma questão que ultrapassa a engenharia e alcança diretamente o conceito de justiça social e distribuição dos investimentos públicos. O projeto é defendido pelos governos Federal e da Bahia como estratégico para a mobilidade, o turismo, a logística e o desenvolvimento econômico, com potencial de beneficiar milhões de baianos e integrar centenas de municípios.

Ao mesmo tempo, quem percorre diariamente as cidades do sudoeste baiano, do Vale do Paramirim, do Sertão Produtivo e da Chapada Diamantina convive com uma realidade completamente diferente. São famílias que aguardam vagas na regulação estadual, pacientes que percorrem centenas de quilômetros em busca de atendimento especializado, estradas estaduais que ainda necessitam de melhorias, pequenos produtores enfrentando dificuldades para escoar a produção e jovens obrigados a deixar suas cidades em busca de ensino superior ou de oportunidades profissionais.

Não se trata de negar a importância de uma grande obra de infraestrutura. Uma ponte pode gerar desenvolvimento, reduzir distâncias e atrair investimentos. O ponto central da discussão é outro. Diante da escassez de recursos públicos, quais devem ser as prioridades de um estado marcado por profundas desigualdades regionais?

Os números ajudam a compreender a dimensão desse debate. Com um investimento previsto de R$ 11,6 bilhões, seria possível financiar dezenas de hospitais de médio e grande porte, centenas de unidades básicas de saúde, milhares de quilômetros de recuperação de rodovias estaduais e vicinais, ampliar significativamente a oferta de equipamentos hospitalares de alta complexidade, fortalecer a segurança pública, expandir redes de abastecimento de água e esgotamento sanitário, além de criar novos campi universitários e institutos federais em regiões historicamente esquecidas. A comparação não significa que esses investimentos sejam mutuamente excludentes, mas demonstra a magnitude dos recursos envolvidos.

O próprio Governo da Bahia anunciou recentemente um pacote de aproximadamente R$ 388,7 milhões para fortalecer a saúde em dezenas de municípios. É um investimento importante, mas que corresponde a pouco mais de três por cento do valor estimado para a ponte. Da mesma forma, o Governo Federal anunciou mais de R$ 500 milhões em novos investimentos na saúde baiana, incluindo hospitais, policlínicas, ambulâncias e custeio de serviços especializados. Ainda assim, os valores permanecem muito inferiores ao orçamento previsto para o empreendimento viário.

No interior, entretanto, as estatísticas têm rosto, nome e família. São pacientes aguardando transferência para leitos especializados, mães viajando durante horas em busca de atendimento para seus filhos, idosos enfrentando longos deslocamentos para realizar exames e produtores rurais convivendo com estradas que dificultam o transporte da produção. Apesar das ações anunciadas para ampliar a capacidade da regulação e da construção de novas unidades de saúde, o desafio permanece enorme em diversas regiões do estado.

É justamente aí que nasce uma reflexão legítima da sociedade. O desenvolvimento da capital e de seu entorno não pode significar o esquecimento das regiões mais distantes. O sertão também produz riqueza, abastece cidades, movimenta a economia agrícola, preserva tradições culturais e contribui para a arrecadação do estado. Seu povo também paga impostos e, naturalmente, espera receber serviços públicos compatíveis com essa contribuição.

Neste Dia da Independência da Bahia, quando se exalta a coragem daqueles que defenderam esta terra, vale a pena voltar os olhos para o nosso sofrido sertão. Vale do Paramirim, Sertão Produtivo, Chapada Diamantina, sudoeste baiano e tantas outras regiões continuam aguardando investimentos que representem mais qualidade de vida, acesso à saúde, educação, segurança, infraestrutura e oportunidades para que seus filhos possam permanecer em suas cidades.

Talvez a pergunta que deva ser feita não seja se a ponte deve ou não ser construída. A questão mais relevante talvez seja outra. A Bahia consegue investir simultaneamente em um projeto bilionário e, ao mesmo tempo, reduzir de forma decisiva as desigualdades históricas do interior? Consegue assegurar que regiões como o Vale do Paramirim, o Sertão Produtivo e a Chapada Diamantina tenham hospitais regionais, centros de alta complexidade, universidades públicas, aeroportos regionais estruturados, rodovias seguras e políticas permanentes para fortalecer a agricultura familiar?

Essa reflexão não pertence a um partido político, não busca favorecer governos nem opositores e tampouco pretende orientar o voto de qualquer cidadão. Ela pertence ao povo da Bahia. Afinal, independentemente das preferências políticas de cada um, todos desejam viver em um estado onde o direito à saúde, à educação, à segurança, ao transporte e ao desenvolvimento alcance igualmente quem vive na capital e quem mora no interior.

O jornalismo não existe para fornecer respostas prontas, mas para provocar perguntas que interessem à sociedade. E essa talvez seja uma das maiores delas. Em um estado de dimensões continentais, onde diariamente vidas dependem da rapidez da regulação, onde comunidades ainda aguardam infraestrutura básica e onde milhares de jovens deixam suas cidades por falta de oportunidades, discutir prioridades orçamentárias é um exercício de cidadania, não de disputa política.

Enquanto a ponte representa uma promessa de desenvolvimento futuro, o sertão continua pedindo respostas para necessidades presentes. Entre o concreto que um dia poderá ligar duas margens da Baía de Todos os Santos e a urgência de salvar vidas, ampliar a educação, fortalecer a segurança, apoiar os pequenos produtores, garantir infraestrutura e oferecer dignidade às famílias do interior, cabe à sociedade refletir sobre qual Bahia deseja ver construída. No dia em que se comemora a Independência da Bahia, talvez a maior homenagem ao estado seja pensar, acima de tudo, nos interesses do seu povo.