Ideias ganham receptividade diante da dificuldade atual de atender média e alta complexidade e apresentam caminhos para aproximar serviços de quem vive longe dos grandes centros

A dificuldade do sistema atual em responder à demanda por média e alta complexidade transformou a saúde em uma das preocupações mais concretas do interior da Bahia. Para quem precisa de UTI, cirurgia, oncologia, hemodiálise, exames complexos ou especialistas, a realidade muitas vezes envolve deslocamentos e dependência da regulação para encontrar atendimento fora do município. É nesse ambiente de insatisfação que propostas apresentadas por um candidato ao governo, como o Pix Saúde e o fortalecimento de hospitais estratégicos já existentes, vêm caindo nas graças de parcelas da população interiorana.

A razão dessa receptividade é relativamente simples. As duas medidas atacam justamente um dos gargalos mais sentidos por quem mora distante dos grandes centros, a falta de capacidade instalada perto do paciente. O Pix Saúde prevê que, quando a rede pública não conseguir realizar determinado atendimento no prazo estabelecido, o Estado possa comprar o procedimento em hospitais privados ou filantrópicos credenciados. O dinheiro não seria entregue ao paciente, mas diretamente à instituição responsável pelo atendimento. O plano apresentado pelo candidato prevê implantação gradual e prioridade para áreas de maior demanda.

A proposta utiliza um mecanismo que não é estranho ao SUS. A legislação permite participação complementar da iniciativa privada, e o próprio Ministério da Saúde vem contratando capacidade de hospitais particulares para atender pacientes da rede pública. O diferencial apresentado pelo Pix Saúde está na intenção de organizar esse recurso como instrumento estadual de enfrentamento das filas, com credenciamento regional, remuneração dos prestadores e encaminhamento dos pacientes que não consigam atendimento na estrutura pública dentro do prazo previsto.

A segunda frente que pode ter impacto também importante nas pequenas e médias cidades, consiste na ideia de defender que o Estado não espere apenas pela construção de novos hospitais regionais. A proposta é identificar hospitais municipais e filantrópicos estrategicamente localizados que já possuam estrutura física e condições de expansão e investir nessas unidades com equipamentos, profissionais, leitos de UTI e novos serviços especializados. Reformas e ampliações em toda estrutura, para que possa atender em pouco tempo, muito mais pacientes.

Isso permitiria criar referências de atendimento mais próximas sem necessariamente aguardar anos pela construção de uma nova unidade regional. Um hospital que hoje resolve apenas casos de menor complexidade poderia, conforme sua estrutura e planejamento regional, ampliar sua capacidade e passar a atender pacientes de vários municípios próximos. Ao mesmo tempo, novos hospitais regionais continuariam sendo projetados onde forem necessários.

É justamente essa combinação que ajuda a explicar por que o discurso encontra receptividade no interior. Para uma população cansada de esperar por soluções estruturais, a possibilidade de aproveitar imediatamente hospitais existentes, equipá-los e colocar especialistas mais perto das cidades menores soa como uma resposta direta a uma necessidade antiga. Enquanto a nova infraestrutura é planejada, unidades de saúde que já estão de pé poderiam começar a receber investimentos, reforços e especialistas.

As duas propostas, portanto, funcionariam de maneira complementar. O Pix Saúde buscaria aproveitar vagas e procedimentos disponíveis na rede privada e filantrópica, de forma urgente. O fortalecimento dos hospitais estratégicos procuraria aumentar definitivamente a capacidade de atendimento dentro das próprias regiões. E a construção de novos hospitais regionais completaria esse processo onde a estrutura existente não está sendo suficiente.

É evidente que essas medidas certamente passariam pelos estudos de viabilidade conceitual para o resultado garantido. O SUS já utiliza contratação complementar e é tecnicamente possível ampliar hospitais existentes, reduzindo expressivamente a regulação, com a devida pactuação com municípios, fiscalização e definição clara dos critérios de acesso. Como essa ideia surgiu em campanha eleitoral, naturalmente os adversários argumentam que a contratação da rede privada poderia consumir recursos que deveriam ser destinados à ampliação da estrutura pública. O autor da ideia, sustenta porém, que uma medida não excluiria a outra e apresenta o Pix Saúde, o fortalecimento dos hospitais existentes e a construção de novas unidades como partes de uma mesma estratégia.

No interior, entretanto, a urgência ajuda a explicar por que essas ideias encontram terreno fértil. Para uma família esperando uma UTI, uma cirurgia ou um tratamento especializado, pouco importa se a solução está em um hospital chamado oficialmente de regional ou em uma unidade municipal fortalecida para exercer essa função. Importa existir atendimento, profissionais, equipamentos e uma vaga disponível quando ela for necessária.

Talvez esteja justamente aí a força repercutida nessas propostas. Diante da incapacidade atual de atender toda a demanda e da angústia associada à chamada “fila da morte”, falar em utilizar imediatamente a capacidade disponível e fortalecer hospitais que já existem oferece uma resposta compreensível para quem convive diariamente com a deficiência da assistência especializada.

O desafio será transformar promessa em capacidade real de atendimento. Mas o debate colocado por essas propostas toca em uma questão que dificilmente pode ser ignorada, para reduzir de verdade a regulação, não basta administrar melhor a fila, ou continuar centralizando o atendimento. É preciso criar mais portas de saída para ela, levando UTI, hemodiálise, especialistas, exames e procedimentos de maior complexidade para mais perto da população que vive nos mais distantes recantos da Bahia.