Às vésperas da eleição do próximo domingo (4), a região precisa de compromissos concretos, não de discursos, favores políticos ou candidatos que reaparecem de quatro em quatro anos

Há momentos em que o jornalismo sério e comprometido com o bem de uma região, precisa escolher entre o conforto do silêncio e a responsabilidade de perguntar. O Eco escolhe perguntar. Há 30 anos, essa tem sido uma das razões de existir de um veículo que nasceu no sertão, conhece suas dificuldades e entende que informar também significa cobrar respostas de quem recebe o voto e administra o dinheiro público.

A uma semana das eleições, a Bacia do Paramirim continua diante de uma questão que não pode ser escondida por discursos de campanha. Onde está o projeto do governo capaz de transformar o potencial desta região em oportunidades concretas para sua população?

Os atuais governos estadual e federal anunciaram investimentos e assinaram convênios importantes para municípios da região, isso é verdade. O problema é que a maior parte dessas iniciativas permanece no papel, enquanto outras apenas começaram, sem que a população disponha de cronogramas claros para sua conclusão. Convênio assinado não é obra entregue. Anúncio não é resultado. Início de obra não significa desenvolvimento realizado.

Incomoda dizer isso publicamente, no entanto, nossa missão exige o mínimo de coragem para questionar hoje e estar com a consciência tranquila do dever cumprido depois do dia 04. Portanto, essa distinção precisa ser feita com clareza. A região continua necessitando de saúde de qualidade, educação pública fortalecida, acesso ao ensino superior, serviços básicos, infraestrutura, emprego e renda. Continua necessitando, sobretudo, de um projeto econômico capaz de atrair empresas, estimular quem produz e criar perspectivas para uma juventude que não quer abandonar sua terra para encontrar oportunidades.

É nesse cenário que as emendas parlamentares ganham importância e também precisam ser discutidas com responsabilidade. Nossa reportagem já detalhou esse assunto em outras oportunidades, mostrando como esses recursos passaram a ocupar posição central na estratégia política de parlamentares e como prefeitos se tornaram peças importantes dessa engrenagem eleitoral.

As emendas são legítimas e podem ser fundamentais para os municípios. O problema aparece quando aquilo que deveria complementar as políticas públicas passa a funcionar como sua substituição. Prefeitos acabam recorrendo a deputados e senadores para garantir recursos destinados ao básico, enquanto faltam políticas estruturantes dos governos estadual e federal, capazes de reduzir essa dependência.

Um município não pode viver eternamente de emenda em emenda. Uma região não pode depender exclusivamente da capacidade de seus prefeitos de encontrar padrinhos políticos em Brasília ou Salvador. E um povo não pode ser convencido de que migalhas representam desenvolvimento.

A Bacia do Paramirim tem água, terras férteis, capacidade produtiva e, principalmente, gente trabalhadora. Tem uma juventude disposta, qualificada e sonhadora. O que falta é transformar esse potencial em política pública permanente. A luta por uma universidade pública regional é um exemplo emblemático. O acesso ao ensino superior público continua sendo uma necessidade para milhares de jovens que enfrentam grandes distâncias para estudar. O mesmo vale para a saúde regional, para a educação profissional e para políticas capazes de gerar emprego e renda.

E, para complicar ainda mais um processo eleitoral que deveria ser pautado por compromissos concretos entre homens e mulheres dispostos a servir à população, aparecem os conhecidos oportunistas da política. São figuras que, depois de sucessivas disputas eleitorais e de terem enfrentado a rejeição das urnas, ressurgem apoiando ou apresentando candidatos a deputado que pouco conhecem a realidade local. São os famosos paraquedistas eleitorais. Caem de quatro em quatro anos, geralmente acompanhados de discursos cuidadosamente preparados e de bandeiras escolhidas de acordo com aquilo que mais sensibiliza o eleitor. A saúde, naturalmente, costuma ocupar lugar de destaque.

Não se trata de negar a importância da saúde. Trata-se justamente do contrário. Saúde é assunto sério demais para ser reduzido a instrumento de campanha, a uma estratégia pessoal e política para sobreviver na vida pública e profissional. O eleitor precisa perguntar quanto será investido, onde, quando, por quem e com qual compromisso de continuidade. Precisa saber o que determinado candidato pretende fazer depois da eleição e não apenas o que promete enquanto busca votos.

Quando candidatos de fora aparecem apenas durante o período eleitoral, sem trajetória consistente de defesa da região, cabe ao eleitor perguntar o que os trouxe agora e o que efetivamente os fará permanecer depois da eleição. Essa não é uma defesa contra ninguém. É uma defesa a favor do eleitor.

O Eco sabe que esse tipo de jornalismo incomoda. Críticas de apoiadores políticos fazem parte do ambiente democrático. Muitas vezes, elas surgem justamente quando determinadas informações, perguntas ou cobranças atingem interesses políticos que prefeririam não ser expostos ao debate público. Mas essa é uma das razões pelas quais o jornalismo existe. O Eco não existe para agradar políticos, para bater chapas buscar curtidas até em velórios. Existe para informar o leitor. Há 30 anos, o jornal acompanha a realidade desta região e defende pautas que não pertencem a partidos, mas à população. Saúde de qualidade, educação melhor. Universidade pública, serviços básicos, infraestrutura, emprego. e renda, desenvolvimento econômico e oportunidades para os jovens.

O que a região precisa agora é de união entre autoridades, entidades e população para estabelecer uma agenda regional que ultrapasse uma eleição e sobreviva aos governos. O sertão não precisa de favores. Precisa de planejamento. Prefeitos não precisam apenas de anúncios, likes, comentários e curtidas nas suas redes, precisam de disposição e suporte do governo para entregarem obras concluídas.

Os municípios não precisam de candidatos que desaparecem depois da eleição. Precisam de representantes comprometidos com a região. Não precisam de migalhas apresentadas como grandes conquistas. Precisam de investimentos proporcionais ao seu potencial.

Depois que as urnas forem abertas, os palanques serão desmontados e os discursos desaparecerão. Permanecerão os mesmos jovens procurando oportunidades, os mesmos pacientes precisando de atendimento, os mesmos estudantes buscando formação e os mesmos municípios tentando construir um futuro com recursos insuficientes. É por eles que O Eco continuará perguntando. Sem medo de contrariar, sem compromisso com o silêncio conveniente e sem transformar jornalismo em palanque. A serviço do leitor e do futuro desta região.