O empate nas pesquisas esconde uma disputa ainda mais apertada, enquanto o interior pode estar preparando a surpresa da eleição

A Bahia chegou à reta final da eleição com a política em ebulição e uma pergunta que já não pode ser ignorada. Depois de quatro anos no comando do Estado, e de duas décadas de hegemonia do mesmo grupo político, chegar à reta final em uma disputa praticamente empatada com a oposição é, no mínimo, um sinal de alerta.

Não significa que a eleição esteja decidida. Mas significa que a vantagem natural que se poderia esperar de uma máquina política tão longeva não aparece de forma evidente na fotografia eleitoral. E isso, em política, diz alguma coisa.

As pesquisas mais recentes funcionam como balizas importantes. Ora colocam Jerônimo numericamente à frente, ora aproximam ACM Neto, mantendo a disputa dentro de uma faixa estreita. O dado mais consistente é a confirmação de uma eleição polarizada, competitiva e aberta a movimentos de última hora.

É justamente aí que a narrativa começa a ficar mais interessante. Levantamentos internos que circulam entre os grupos políticos apontam um clima de mudança em pequenas cidades do interior, com crescimento de ACM Neto. Se essa movimentação estiver se confirmando nas urnas, poderá representar uma variável importante na reta final.

O interior, afinal, não é detalhe na política baiana. É onde prefeitos, vereadores, lideranças locais, relações pessoais e redes políticas tradicionais continuam tendo enorme capacidade de influenciar o voto. Uma mudança silenciosa em dezenas de municípios pode não produzir manchetes, mas, somada, pode alterar uma eleição estadual.

Jerônimo tem a força da estrutura governista e a proximidade política com Lula, que continua extremamente forte na Bahia. ACM Neto, por sua vez, precisa transformar a força de sua rede política em votos suficientes para impedir que a vantagem presidencial de Lula seja automaticamente transferida para o governador.

Esse talvez seja o grande duelo desta reta final. Jerônimo precisa fazer com que o voto em Lula desça para a urna estadual. Neto precisa convencer o eleitor de Lula de que é possível separar as duas escolhas. A presença de Lula na Bahia, nesse contexto, ganha uma dimensão que vai além do palanque. É uma tentativa de fechar essa porta de saída para o eleitor lulista que ainda considera votar na oposição estadual.

E há um detalhe que merece atenção. Um grupo político que governa a Bahia há vinte anos não deveria chegar a uma eleição de renovação de comando dependendo de poucos pontos percentuais para se manter no poder. O fato de isso estar acontecendo não determina o resultado, mas revela que existe uma parcela significativa do eleitorado disposta a ouvir a alternativa.

No Senado, a disputa acrescenta outra camada de tensão. Rui Costa aparece mais destacado nas pesquisas, enquanto Jaques Wagner, João Roma e Angelo Coronel disputam uma faixa muito mais apertada. Como são duas cadeiras, a eleição permite combinações e votos cruzados. O eleitor pode acompanhar uma chapa, escolher nomes de campos diferentes ou simplesmente fazer sua própria composição. É justamente por isso que a disputa pelo Senado pode guardar uma surpresa até a abertura das urnas.

No fundo, a eleição baiana chegou à sua fase mais interessante porque as estruturas já conhecidas não foram suficientes para produzir uma vantagem confortável para ninguém. O governo tem a máquina, a experiência e a força de Lula. A oposição tem uma candidatura competitiva, uma rede política consolidada e sinais de crescimento em regiões onde a política costuma ser menos capturada pelas grandes narrativas da capital.

A reta final, portanto, não é apenas uma corrida por alguns pontos nas pesquisas. É uma disputa pelo humor do eleitor. Se o sentimento predominante for de continuidade, a estrutura governista terá encontrado sua resposta. Se estiver se consolidando no interior um desejo de mudança, como sugerem os levantamentos que circulam nos bastidores, a eleição poderá ser muito mais apertada do que qualquer fotografia isolada consegue revelar.

E talvez seja justamente essa a pergunta que a Bahia levará para a urna. Depois de vinte anos de um mesmo grupo no poder, o eleitor ainda quer continuidade ou começou, silenciosamente, a procurar outro caminho? É essa resposta que nenhuma pesquisa consegue antecipar completamente e que, no fim, fará toda a diferença.