Faleceu, no dia 16 de janeiro de 2015, em Phoenix, Arizona, Estados Unidos da América, a senhora Ann Carmichael Lodge, viúva do pastor David Lodge. Ambos eram bem conhecidos na região de Paramirim – Ba, onde viveram, por muitos anos, desempenhando a função de missionários da Igreja Presbiteriana – ele, como pastor e ela, como uma grande mulher que, além de cuidar da família, dava grande suporte ao seu esposo nas atividades relacionadas à igreja e nas funções sociais e comunitárias que essa disponibilizava.

Formada em Matemática, com pós-graduação em Educação e um profundo conhecimento em música e artes, Dona Ana, como era conhecida por todos aqui no Brasil, utilizava dessas habilidades para desempenhar sua função sócio-cultural na comunidade em que vivia. Assim, além de dirigir a escola dominical, coordenar encontros de jovens e casais, ela exerceu a função de professora no então Colégio de Paramirim, cujo desempenho brilhante lhe mereceu o convite para servir como Paraninfa dos formandos do curso de Magistério, turma 1971, da qual fiz parte. A cerimônia de formatura foi uma das mais bonitas e concorridas daquela época, dada, justamente, à criatividade e habilidade artístico-musical de D. Ana, que, embora protestante, escolheu, planejou e executou ao piano todas as músicas que compunham o repertório da solene missa de formatura, com um detalhe – o coral era composto pelos formandos e regido, ao mesmo tempo, pela pianista. Em seu discurso de agradecimento, enquanto Paraninfa, ela abordou questões sociais, políticas, educacionais e falou sobre o ecumenismo, um tema polêmico, controvertido, porém em voga naquela época.

Na dramaturgia, D. Ana e o Rev. David, seu esposo, montaram, dirigiram e implementaram em Paramirim, no final dos anos setenta, uma peça religiosa que foi encenada em praça pública utilizando-se de uma montagem com som, luz e tecnologia super moderna para a época.

Olhando atrás, podemos dizer que D. Ana era considerada uma mulher à frente do seu tempo, uma visionária que utilizava de sua ousadia, coragem, inteligência, iniciativa e criatividade para por em prática tudo aquilo que julgava importante e que trouxesse benefícios para a comunidade em que atuava. Como boa missionária, D. Ana tratou de romper as barreiras impostas pelas diferenças religiosas da ocasião, adotando-se o ecumenismo como um possível caminho de união entre as diferentes denominações evangélicas e eclesiásticas, e colocando a fé cristã acima de todas essas denominações. Isso, naturalmente, não deixava de incomodar a parte conservadora da sua igreja e a das igrejas que acolhia como parceiras.

Levando-se em conta o adágio popular que diz que “por trás de um grande homem sempre existe uma grande mulher”, poder-se-ia dizer que D. Ana foi um grande exemplo disso. A eficácia e o excelente desempenho de David Lodge, enquanto pastor, deviam-se ao trabalho incansável, ao cuidado, à dedicação, ao apoio logístico e burocrático de Dona Ana. Na verdade, até os sermões do Rev. David passavam pelo crivo e pela apreciação de sua esposa, dado ao seu conhecimento bíblico, teológico e linguístico. A respeito do seu conhecimento da língua portuguesa, nunca me esqueço dos momentos em que ela nos chamava a atenção para que articulássemos corretamente as palavras e observássemos as concordâncias gramaticais durante os ensaios das músicas do coral que dirigia. D. Ana era uma perfeccionista, super organizada, de raciocínio rápido e lógico, talvez por conta de sua formação matemática e musical. Era ela quem cuidava da parte administrativa e financeira da igreja, e que lidava com as questões inerentes à família junto à sede da Missão.

Além de Paramirim, os Lodges também prestaram serviços missionários e sociais em Sítio do Mato, Ponte Nova, hoje Wagner, na Bahia. Porém, foi em Paramirim que passaram a maior parte dos mais de 12 anos vividos no Brasil. Foi em Paramirim, também, que, basicamente, cresceram os quatro filhos do casal: Susan, Elisabeth, Marjorie e James, os quais criaram laços de amizade e sentimentos de amor à terra que os viu crescer. O Rev. David e D. Ana hoje sobrevivem através desses quatro filhos, dos seus netos e bisnetos e do grande legado de bons exemplos a serem seguidos.

Na condição de grande amigo da família Lodge, e de ter por ela uma imensa gratidão, quero deixar aqui as minhas condolências e os meus sentimentos de profundo pesar pela perda dessa senhora que era tida por muitos como “a dama paramiriense”, muito embora fosse de nacionalidade americana. Isso demonstra o carinho, o respeito, a admiração e o reconhecimento por essa mulher que, mesmo sendo de terras estrangeiras, deixou marcas indeléveis na Paramirim dos anos sessenta e setenta.

Uma celebração da vida, em homenagem à D. Ana, acontecerá no dia 21 de fevereiro deste, às 14 horas, na Heritage Presbyterian Church, em Glendale, Arizona, U.S.A. A celebração será conduzida pela sua neta, Clare, que seguiu os passos do avô e se tornou ministra.

Que sua alma descanse em paz e que suas boas lembranças e ações continuem vivas em nossos corações.

Diógenes Lima

Ibiajara, 20 de janeiro de 2015