Promessas de obras, reorganização de alianças e avanço da oposição no interior colocam governo e adversários em um cenário eleitoral considerado um dos mais equilibrados das últimas décadas no estado.

A política baiana começa a viver de forma mais intensa o ambiente pré-eleitoral que antecede a disputa pelo governo do estado em 2026. Nos bastidores, lideranças governistas e oposicionistas ampliam articulações em todas as regiões da Bahia enquanto o governo estadual tenta consolidar sua base política junto aos prefeitos do interior por meio da promessa de liberação de obras e investimentos estratégicos.

A expectativa entre gestores municipais é de que o governador Jerônimo Rodrigues anuncie ainda nesta semana um conjunto de ações e recursos destinados principalmente às cidades do interior. A iniciativa é vista como uma tentativa de fortalecer alianças locais e reequilibrar a relação política com prefeitos que aguardam obras estruturantes capazes de impulsionar suas administrações e fortalecer seus projetos eleitorais.

Em muitos municípios, essas intervenções são consideradas essenciais para a consolidação de lideranças locais. São projetos de grande porte, frequentemente impossíveis de serem executados apenas com recursos próprios das prefeituras, e que costumam representar o principal legado administrativo de um mandato. Nos bastidores, no entanto, existe preocupação entre aliados do governo quanto ao tempo necessário para que essas promessas saiam do papel e se transformem em entregas concretas antes do período eleitoral.

A força política do governo estadual ainda se sustenta principalmente na ampla rede de prefeitos aliados em pequenos municípios. Foi justamente esse apoio interiorano que garantiu a vitória de Jerônimo Rodrigues nas eleições de 2022, quando a votação expressiva nas cidades menores compensou o desempenho da oposição nos grandes centros urbanos.

O cenário atual, porém, começa a apresentar sinais de mudança. Em várias regiões do estado surgem relatos de lideranças locais que demonstram insatisfação com o ritmo das ações do governo e passam a se aproximar do projeto político do ex-prefeito de Salvador, ACM Neto, principal nome da oposição para a disputa de 2026.

A movimentação oposicionista também se intensifica com a construção da futura chapa majoritária. Nos últimos dias ganhou força a possibilidade de o prefeito de Jequié, Zé Cocá, integrar a candidatura de ACM Neto como vice-governador. A hipótese avançou após o prefeito de Feira de Santana, Zé Ronaldo, esfriar as especulações sobre uma eventual participação na chapa e reafirmar que pretende cumprir integralmente o mandato municipal.

Reeleito em Jequié com votação expressiva nas eleições municipais mais recentes, Zé Cocá consolidou uma base política robusta na região e passou a ampliar as críticas ao governo estadual, especialmente em relação à ausência de investimentos estruturantes no interior. Nos bastidores políticos, seu nome passou a ser visto como uma opção capaz de ampliar a presença da oposição em áreas onde o grupo governista tradicionalmente obtém grande votação.

Outras possibilidades chegaram a ser cogitadas dentro do campo oposicionista, como a participação da prefeita de Vitória da Conquista, Sheila Lemos, em uma eventual composição majoritária. Avaliações internas, porém, indicam que uma renúncia ao cargo poderia provocar instabilidade política no município, o que tende a reduzir a viabilidade dessa alternativa.

Esse conjunto de movimentos ocorre em um momento político marcado por um fator estrutural importante na Bahia. Desde 2007 o estado é governado pelo mesmo grupo político liderado pelo Partido dos Trabalhadores. A sucessão de governos iniciada com Jaques Wagner foi seguida pelas gestões de Rui Costa e, mais recentemente, de Jerônimo Rodrigues.

A permanência de quase duas décadas no poder cria uma realidade ambígua. De um lado, a continuidade administrativa permitiu ao grupo governista construir uma extensa rede de alianças no interior do estado, com forte influência entre prefeitos e lideranças regionais. De outro, o longo ciclo de poder também alimenta discursos de renovação política explorados pela oposição.

Nesse contexto, ACM Neto procura fortalecer sua presença em regiões onde teve menor desempenho na eleição passada, ao mesmo tempo em que mantém sua influência nos grandes centros urbanos. Nas eleições de 2022, o ex-prefeito de Salvador venceu nas maiores cidades da Bahia, mas acabou derrotado na soma geral dos votos devido ao forte desempenho do adversário nos pequenos municípios.

O atual movimento político sugere um redesenho parcial desse mapa eleitoral. Enquanto o governo preserva uma base relevante entre prefeitos do interior, a oposição tem registrado adesões de lideranças regionais que anteriormente apoiaram o projeto governista. Esse fenômeno começa a ser observado inclusive em cidades que nas últimas eleições apresentaram votações amplamente favoráveis ao atual governador.

Analistas políticos avaliam que, se essa tendência se consolidar, a eleição de 2026 poderá ser ainda mais disputada do que a de 2022. O equilíbrio entre o peso eleitoral das grandes cidades e a influência política do interior tende a transformar a corrida pelo Palácio de Ondina em uma das mais imprevisíveis da história recente da Bahia.

Embora ainda falte tempo para a formação definitiva das chapas e para o início oficial da campanha, o ambiente político já indica que o estado se encaminha para uma disputa marcada por polarização, intensa negociação de alianças e uma disputa voto a voto entre dois projetos políticos consolidados. O resultado, ao que tudo indica, dependerá menos de estruturas tradicionais e mais da capacidade de cada grupo em dialogar com um eleitorado que demonstra sinais cada vez mais claros de divisão entre continuidade e mudança.