Decisão inédita definiu o teto de R$ 700 mil. Para muitos municípios menores, ainda é alto, mas representa primeiro passo contra abusos

Em um movimento que pode representar o começo do fim da farra dos cachês milionários no São João da Bahia, os prefeitos do estado decidiram estabelecer um teto para o pagamento de artistas contratados com dinheiro público. A decisão, tomada após reunião na sede da União dos Municípios da Bahia, em Salvador, surge como resposta tardia, porém necessária, à escalada absurda de valores que vinha transformando a maior festa popular do Nordeste em um verdadeiro leilão financeiro.

Ficou definido que nenhum contrato artístico poderá ultrapassar 700 mil reais quando custeado pelas prefeituras. O acordo ainda será formalizado junto ao Ministério Público da Bahia e deverá contar com o aval dos tribunais de contas. Para muitos gestores, trata-se de uma tentativa de devolver algum grau de racionalidade a um mercado que perdeu completamente o senso de proporção.

O próprio presidente da UPB, Wilson Cardoso, foi direto ao afirmar que artistas que insistirem em cifras superiores simplesmente ficarão de fora das programações. A mensagem é clara, o dinheiro público não pode continuar refém de exigências que ignoram a realidade financeira dos municípios.

A medida nasce de um cenário de indignação generalizada. Nos últimos anos, cachês que giravam em torno de 200 mil reais saltaram para 600 mil, 800 mil e até mais de 1 milhão de reais, sem qualquer justificativa plausível. Enquanto isso, prefeituras pequenas, responsáveis por manter postos de saúde, escolas e serviços básicos, eram pressionadas a competir com cidades maiores para não verem seus festejos esvaziados.

Não faltaram vozes denunciando o descontrole. Houve prefeito classificando pagamentos de 1 milhão e meio de reais como abuso de dinheiro público, lembrando que cada real gasto no palco é um real a menos na vida concreta da população. A crítica expõe uma contradição evidente, a cultura é fundamental, mas não pode se sobrepor às necessidades essenciais de quem vive nos municípios.

Ainda assim, o teto de 700 mil reais está longe de ser ideal. Para a maioria das cidades do interior, esse valor continua fora da realidade. O limite representa um avanço, mas também revela como o debate partiu de patamares completamente distorcidos. Se a intenção é proteger os cofres públicos, será preciso ir além e construir critérios que considerem o porte de cada município e priorizem artistas locais e regionais, que muitas vezes ficam à margem enquanto estrelas nacionais drenam orçamentos inteiros.

Os próximos passos incluem diálogo com o setor artístico e a elaboração de regras mais claras. Esse entendimento é necessário, mas não pode servir de brecha para a volta do velho modelo em que empresários ditam preços e prefeituras apenas fazem o pix.

O que está em jogo é mais do que o tamanho da festa. É a própria noção de responsabilidade com o dinheiro do contribuinte. A festa junina da Bahia é patrimônio cultural e identidade do povo, mas não pode continuar sendo tratada como vitrine para contratos inflados. O teto aprovado pode não ser a solução definitiva, porém inaugura um debate que já deveria ter começado há muito tempo: festa sim, farra com recursos públicos, não.