Presidente se consolida como favorito para 2026 com discurso de soberania, mas na Bahia o partido lida com fadiga de duas décadas no poder, risco de perder aliados e terreno para ACM Neto

Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) amplia sua liderança no cenário nacional e se consolida como favorito para 2026, o PT na Bahia atravessa um momento delicado. Pesquisas recentes revelam que, apesar da aprovação majoritária do governador Jerônimo Rodrigues, o desgaste de duas décadas de domínio político, somado ao excesso de confiança de seus caciques, ameaça a hegemonia petista no estado.

A pesquisa Atlas/LatamPulse divulgada nesta quinta-feira (28) mostra Lula em situação confortável frente aos principais adversários. No primeiro cenário testado, o petista aparece com 44,1% das intenções de voto, contra 31,8% de Tarcísio de Freitas (Republicanos) e 4,4% de Romeu Zema (Novo). Num segundo cenário, contra Michelle Bolsonaro (PL) e Zema, Lula mantém 44,2%, enquanto a ex-primeira-dama soma 29,7%. Os números evidenciam que, ao assumir a defesa da soberania nacional em pautas estratégicas, Lula tem conseguido surfar em uma onda favorável no eleitorado, consolidando-se como líder absoluto da corrida presidencial.

Na Bahia, porém, a realidade é menos confortável. Pesquisa Quaest/Genial divulgada em 22 de agosto aponta ACM Neto (União) à frente nas intenções de voto para governador em 2026, com 41%. O atual chefe do Executivo, Jerônimo Rodrigues (PT), aparece com 34%, tecnicamente atrás, apesar de contar com 59% de aprovação popular. O próprio governador fez questão de divulgar e comentar os números, enaltecendo sua alta aprovação e tratando, mesmo que de forma irônica, a diferença para ACM Neto como um “empate técnico” na disputa baiana.

Esse cenário expõe fragilidades. Após 20 anos de comando contínuo no estado, o PT baiano enfrenta o desgaste natural do tempo, a impaciência de setores sociais com promessas não cumpridas e a insatisfação crescente de parte da população com serviços básicos. Além disso, a estratégia dos caciques petistas em tentar impor uma chapa “puro sangue”, com nomes como Jaques Wagner e Rui Costa disputando o Senado, reforça críticas de fechamento político e pouca renovação de lideranças.

Outro ponto sensível é a desconexão entre o apoio dos prefeitos e o humor popular. Embora o partido ainda ostente a adesão de grande parte dos gestores municipais, cresce a percepção de que nem todos estarão dispostos a subir no mesmo palanque em 2026. Jerônimo corre o risco de perder apoios importantes, como o do senador Ângelo Coronel, além de enfrentar a dificuldade de acomodar aliados estratégicos como PSD e Avante na chapa majoritária. O quadro de fissuras internas, somado à força de ACM Neto como principal opositor, aumenta a pressão por ajustes urgentes.

O contraste é evidente: no plano nacional, Lula cresce embalado pela pauta da soberania, em franca vantagem sobre a oposição fragmentada. Ao contrário do que ocorreu no pleito passado, quando Lula foi o maior cabo eleitoral de Jerônimo, na Bahia o PT vive um momento de vulnerabilidade, em que a aprovação administrativa não garante, por si só, a manutenção da hegemonia política. Para 2026, o partido terá de lidar não apenas com adversários externos, como ACM Neto, mas também com a necessidade de recompor alianças, administrar vaidades e se reinventar diante de um eleitorado cada vez mais exigente e menos fiel às estruturas tradicionais do poder.