Expansão desordenada de cursos, influência política e ausência de rigor na certificação colocam a população diante de um risco que já não pode ser ignorado
O Brasil assiste, quase com resignação, à erosão de um dos pilares mais sensíveis da vida em sociedade: a formação médica. Durante décadas, cursar Medicina foi sinônimo de rigor intelectual, seleção severa e formação técnica exigente, compatível com a responsabilidade de lidar diariamente com a saúde e a vida humanas. Hoje, esse paradigma se fragmenta diante de uma realidade desconfortável, que avaliações nacionais recentes apenas tornaram impossível de ignorar.
Nas últimas duas décadas, os cursos de Medicina se proliferaram pelo território nacional de forma vertiginosa. Essa expansão não ocorreu apenas por planejamento sanitário ou por critérios técnicos de necessidade regional. Em muitos casos, foi impulsionada por concessões mediadas por influências políticas, interesses locais e pressões econômicas, frequentemente dissociadas da real capacidade das instituições e das redes de saúde de oferecer formação prática adequada. Abriram-se escolas onde faltam hospitais-escola estruturados, preceptores qualificados e volume assistencial compatível com o número de estudantes.
O resultado dessa expansão desordenada é agora mensurável. Uma parcela expressiva das faculdades de Medicina apresenta desempenho insatisfatório em avaliações que aferem competências básicas esperadas ao final da graduação. Não se trata de falhas pontuais, mas de um padrão que revela lacunas graves na formação clínica, no raciocínio diagnóstico, na tomada de decisão terapêutica e na compreensão ética da prática médica.
Há um elemento estrutural que agrava esse cenário, a ausência de um exame nacional rigoroso e obrigatório para a certificação profissional, nos moldes do que ocorre com os advogados por meio da OAB. Enquanto o curso de Direito, mesmo após forte expansão, mantém uma barreira mínima de competência, a Medicina brasileira ainda se apoia quase exclusivamente no diploma como passaporte para o exercício profissional pleno. Assim, egressos de cursos comprovadamente frágeis ingressam no mercado com o mesmo status legal de médicos formados em instituições consolidadas e exigentes.
Esse vácuo regulatório contribuiu para uma distorção ainda mais preocupante. A Medicina deixou de ser apenas um curso que exige elevado conhecimento e mérito acadêmico e passou, em muitos contextos, a se tornar um curso elitizado pelo custo, mas não necessariamente pelo rigor. As altas mensalidades funcionam como filtro econômico, não intelectual. O acesso se restringe a quem pode pagar, enquanto o sistema abdica de exigir, ao final, uma comprovação objetiva de competência mínima. O efeito é previsível: ano após ano, o mercado recebe verdadeiras enxurradas de profissionais sem a devida capacitação para lidar com situações clínicas complexas, urgências, decisões críticas e responsabilidades éticas inerentes à profissão.
O impacto dessa realidade não é abstrato. Ele se materializa nos plantões sobrecarregados, nas emergências sem supervisão adequada, nos diagnósticos tardios, nas condutas inseguras, no uso inadequado de medicamentos e no aumento da judicialização da saúde. O médico despreparado não erra pouco; ele erra onde o custo é humano. Cada falha de formação se converte em risco assistencial, penalizando principalmente a população que depende do sistema público de saúde.
Diante desse quadro, a reação dos órgãos reguladores ainda soa aquém da gravidade do problema. Medidas administrativas pontuais, como redução de vagas ou suspensão temporária de ingressos, são insuficientes quando aplicadas após anos de funcionamento precário. O desafio exige uma mudança de lógica, com atuação firme desde o credenciamento dos cursos, fiscalização permanente dos cenários de prática, controle rigoroso sobre vestibulares e número de vagas, além da possibilidade real de fechamento de instituições que reiteradamente não atingem padrões mínimos.
Os conselhos profissionais, por sua vez, não podem se limitar ao registro formal do diploma. Cabe-lhes assumir papel ativo na proteção da sociedade, pressionando por modelos de certificação que garantam que ninguém exerça a Medicina sem demonstrar, de forma inequívoca, competência técnica e ética mínima. Seja por meio de um exame nacional de proficiência, de um período obrigatório de prática supervisionada estruturada ou de um modelo híbrido, o país precisa decidir se continuará transferindo ao paciente o papel de avaliador final do médico recém-formado.
A crise exposta não é apenas educacional. É moral, sanitária e institucional. Persistir na atual trajetória significa aceitar que erros evitáveis façam parte do custo da expansão, como se vidas humanas fossem estatística tolerável. Se a Medicina pretende manter seu compromisso histórico com a ciência, a ética e a sociedade, será necessário interromper essa sangria com coragem política, rigor técnico e responsabilidade pública. Avaliar é importante, mas agir é urgente.
