Delator afirma que entrega foi feita por chefes de esquema bilionário ligado ao crime organizado; PF investiga ligação entre o parlamentar, fraudes na ANP e lavagem de dinheiro na Faria Lima

Um dos principais nomes cotados para disputar as eleições de 2026 como vice na chapa presidencial da direita, o senador Ciro Nogueira (PP-PI) está no epicentro de uma denúncia explosiva que envolve corrupção, crime organizado e tráfico de influência dentro das instituições públicas brasileiras. De acordo com uma investigação em curso da Polícia Federal, Ciro teria recebido pessoalmente uma sacola com dinheiro vivo, entregue por dois chefes de um esquema criminoso ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC), diretamente em seu gabinete no Senado Federal.

O fato teria ocorrido em agosto de 2024. Segundo depoimento já formalizado à PF, a entrega foi feita por Mohamad Hussein Mourad, conhecido como “Primo”, e Roberto Augusto Leme da Silva, o “Beto Louco”, ambos apontados como líderes de uma quadrilha envolvida em fraudes bilionárias no setor de combustíveis, lavagem de dinheiro por meio de fundos de investimento e manipulação de decisões na Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). A delação, revelada inicialmente pelo portal ICL Notícias, dá conta de que os dois criminosos chegaram ao Senado com uma sacola de papelão grampeada, em tamanho compatível com o de cédulas de dinheiro, com a finalidade explícita de repassá-la ao senador. “Eles estavam indo encontrar o Ciro, em posse dessa sacola”, afirmou a testemunha, que diz ter ouvido do próprio Beto Louco que o dinheiro era “para o Ciro Nogueira”.

As suspeitas recaem sobre a possibilidade de que o valor tenha sido entregue em troca de influência política. O grupo criminoso tentava reverter a revogação de licenças das empresas Copape e Aster, envolvidas no esquema de fraudes, e buscava apoio legislativo para garantir sua permanência no setor de combustíveis. Investigações da PF já apontam indícios de articulação política junto à ANP e ao Senado, com o envolvimento de operadores financeiros que atuavam a partir da Faria Lima, em São Paulo. O esquema, descoberto pela Operação Carbono Oculto, pode ter movimentado mais de R$ 50 bilhões em sonegação, contratos fictícios e lavagem de dinheiro.

Não é a primeira vez que Ciro Nogueira aparece como suspeito em casos de corrupção. Em 2022, a Polícia Federal concluiu que ele recebeu R$ 5 milhões em espécie do grupo J&F, além de ter sido acusado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro em repasses que ultrapassavam R$ 7 milhões, vindos da Odebrecht. À época, os valores teriam sido repassados a pretexto de apoio político ao governo Dilma Rousseff, do qual o PP fazia parte. Ainda assim, o senador jamais foi condenado e conseguiu manter sua relevância política, sobretudo como um dos principais líderes do Centrão e ex-ministro da Casa Civil no governo Jair Bolsonaro.

Agora, as acusações se tornam ainda mais graves, ao ligá-lo diretamente a uma organização criminosa que atua no tráfico de drogas, assassinatos e extorsões. Em resposta, Ciro enviou um ofício ao ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, no qual nega veementemente qualquer envolvimento com os citados e chama o ICL Notícias de “site de pistoleiros”. Ele afirma que as pessoas mencionadas jamais estiveram em seu gabinete e que jamais teve qualquer contato com elas. No mesmo documento, coloca seus sigilos bancário, fiscal, telefônico e de gabinete à disposição da Justiça e exige que a Polícia Federal investigue com urgência os registros de entrada no Senado e as imagens de segurança da Casa.

Apesar das negativas, o impacto político da denúncia é devastador. Ciro vinha sendo articulado como possível vice de uma chapa encabeçada por Tarcísio de Freitas ou até mesmo por Jair Bolsonaro, caso este recupere seus direitos políticos. Com o escândalo, seu nome passa a ser visto com reservas dentro das próprias fileiras da direita, enquanto partidos aliados acompanham com preocupação o desenrolar das investigações.

As defesas de Mohamad Hussein Mourad e Roberto “Beto Louco” não se pronunciaram até o momento. Ambos continuam sendo investigados por uma série de crimes, entre eles organização criminosa, evasão de divisas, corrupção ativa e passiva e lavagem de dinheiro. Segundo os investigadores, a quadrilha operava uma rede complexa que incluía empresários, políticos, lobistas e operadores do mercado financeiro, todos interligados em uma estrutura sofisticada de corrupção.

A Polícia Federal segue analisando imagens de câmeras de segurança do Senado, registros de entrada e movimentações bancárias para apurar a veracidade da denúncia. Se confirmada, esta pode ser uma das mais graves ligações já documentadas entre o crime organizado e um parlamentar de alto escalão, com a entrega direta de dinheiro ocorrendo dentro do próprio Congresso Nacional.

O caso pode resultar não apenas em cassação de mandato, mas também em ações penais que comprometeriam definitivamente a carreira política de Ciro Nogueira, colocando em xeque a integridade institucional do Senado e reacendendo o debate sobre a infiltração do crime organizado nas estruturas formais do poder público.