Os efeitos maléficos da chantagem americana poderão ser sentidos até em municípios como Livramento de Nossa Senhora, Dom Basílio e Paramirim, que juntos produzem mais de 70 mil toneladas por ano
Produtores rurais do interior da Bahia, especialmente dos municípios de Livramento de Nossa Senhora, Dom Basílio e Paramirim, também vivem momentos de apreensão diante da iminente aplicação de uma tarifa de 50% pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. Com início previsto para 1º de agosto, a chantagem comercial pode comprometer gravemente a safra de manga tipo exportação produzida na região, que é reconhecida internacionalmente pela sua qualidade.
Juntos, os três municípios são responsáveis por mais de 70 mil toneladas anuais de manga — sendo Livramento com cerca de 45 mil toneladas, Dom Basílio com aproximadamente 15 mil toneladas e Paramirim com uma produção estimada entre 10 e 12 mil toneladas por ano. Desse total, mais de 90% da produção é escoada para outros estados brasileiros e também para o mercado externo, principalmente para os Estados Unidos e a União Europeia.
Os EUA são o segundo maior comprador da manga baiana, absorvendo grandes volumes da fruta durante janelas específicas de exportação, aproveitando a sazonalidade e a qualidade do produto cultivado no semiárido com técnicas modernas de irrigação. A região do São Francisco, por exemplo, conhecida como Polígono da Manga, tornou-se referência nacional em fruticultura irrigada de alto padrão.
A preocupação do setor é grande. A manga é uma fruta extremamente perecível, o que reduz drasticamente o tempo hábil para encontrar novos mercados consumidores. “Estamos falando de um produto altamente perecível. Não há tempo hábil para realocar essa produção para outros destinos. Se essa loucura continuar, haverá perda de mercado, desemprego e insegurança para milhares de famílias”, alertou Humberto Miranda, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado da Bahia (Faeb) e do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar).
Embora parte da produção baiana também abasteça estados como São Paulo, Pernambuco e Minas Gerais, o mercado interno não tem capacidade de absorver o volume que antes era exportado. A saturação poderá derrubar os preços pagos aos produtores, levando a prejuízos ainda maiores para pequenos e médios agricultores.
A Faeb e o Senar articulam missões comerciais para fortalecer a presença da manga baiana no mercado europeu, sobretudo na Holanda, que é a porta de entrada para o restante do continente e também em países do Oriente Médio. No entanto, essas alternativas demandam tempo, certificações sanitárias e negociações diplomáticas complexas.
O impacto social é igualmente alarmante. A cadeia produtiva da manga em Livramento, Dom Basílio e Paramirim sustenta milhares de empregos diretos e indiretos, envolvendo cultivo, colheita, embalagem, transporte e exportação. Caso a tarifa seja efetivada sem uma estratégia de compensação, há o risco de paralisação de atividades, demissões em massa e graves danos à economia regional.
A decisão norte-americana, de forte teor político, com intenção explícita de intervenção na soberania brasileira, bem como em fazer uso do seu poderio econômico, exige resposta urgente do governo federal. A continuidade da exportação de frutas brasileiras depende de articulação diplomática eficaz, abertura de novos mercados e medidas que protejam os produtores de fruticultura, especialmente os do semiárido baiano, que há décadas transformam solo e clima adversos em produção de excelência.
Caso não haja uma reversão, toneladas de manga correm o risco de apodrecer nos pomares do interior baiano. Mais do que perdas financeiras, o que estará em jogo é a segurança econômica de comunidades inteiras que vivem da terra e que, até agora, vinham exportando qualidade e desenvolvimento para o mundo.
