Em Brumado, no dia 16 de outubro, ex-vereador de Barra da Estiva será julgado por feminicídio e ocultação de cadáver de jovem grávida. Caso acende alertas sobre poder, impunidade e violência de gênero no interior da Bahia

No próximo dia 16 de outubro, o Tribunal do Júri de Brumado vai decidir o destino de um crime silencioso que clama por justiça há quase três anos. É o julgamento de Valdinei Caires, ex-vereador de Barra da Estiva, acusado de matar Beatriz Pires, de 25 anos, então grávida de seis meses e de ocultar os corpos dela e do bebê. O crime, que mobilizou toda uma comunidade, foi transferido para Brumado numa tentativa explícita de garantir segurança, isenção e proteger testemunhas de pressões políticas e sociais na cidade natal.

Em 11 de janeiro de 2023, Beatriz desapareceu sem deixar rastros. Câmeras registraram seu passo inicial, ela entrando em um carro ligado a Valdinei Caires, que na época presidia a Câmara Municipal de Barra da Estiva. Dias depois, exames periciais identificaram manchas de sangue no porta-malas daquele veículo. O Ministério Público afirma que houve atração da vítima para um encontro, assassinato e em seguida, ocultação do corpo, tudo em meio ao temor de uma paternidade não reconhecida que poderia manchar a reputação política do acusado.

Ao longo das investigações, novas camadas de tensão emergiram. Embora existiam testemunhas, muitas só aceitaram depor sob sigilo, temendo retaliações. Outro dado revelador, foi o celular de Beatriz que conectou-se ao Wi-Fi do sindicato presidido por Valdinei, entidade que o réu comandava, dois dias após o desaparecimento dela. Na audiência, Valdinei negou o crime, sustentando que sofre perseguição política por ter notoriedade local.

A Justiça, entretanto, avaliou que os indícios apontam para autoria. O juiz Josué Teles Bastos Junior pronunciou Valdinei pelos crimes de feminicídio e ocultação de cadáver, reconhecendo o motivo fútil e a condição de vulnerabilidade de Beatriz. O crime tornou-se símbolo da urgência no combate à violência de gênero nos municípios do interior, onde poder político local muitas vezes intimida vítimas e testemunhas e impede que casos graves sejam apurados com transparência.

Na pequena Barra da Estiva, o episódio gerou choque e dor, mas também revolta. Nas praças, nos bares, nas ruas, o nome de Beatriz virou memória exigente de deveres não cumpridos. A transferência do julgamento para Brumado, distante geograficamente, carrega consigo uma narrativa de proteção à Justiça, proteger testemunhas, evitar pressão indevida e assegurar que a gravidade do crime não se perca em esquemas locais de influência.

Para muitas mulheres da região, o que está em jogo não é apenas uma sentença judicial: é o risco de que seus gritos continuem inaudíveis, soterrados por omissões. O júri deverá ser, portanto, não só um momento de decisão, mas de enfrentamento, contra o poder que mascarou o crime, contra o medo que silenciou testemunhas e contra uma cultura que ainda relega mulheres ao risco, especialmente quando a vítima ousa desafiar as convenções do poder local.

Quando o dia 16 de outubro chegar, cabe àqueles que serão jurados decidir se o silêncio de Beatriz será rompido pela justiça ou se, no fim, mais um crime, ainda sem corpo, será deixado sem resposta digna.