Construção de mais uma universidade pública em Jequié expõe o abandono histórico da Bacia do Paramirim e do Sertão Produtivo

A autorização para o início das obras do novo campus da Universidade Federal do Sul da Bahia em Jequié foi recebida com discursos oficiais de celebração e desenvolvimento, mas também reacendeu um debate profundo e incômodo sobre desigualdade regional, prioridades políticas e o acesso real da população do interior baiano à educação superior pública.

A ordem de serviço foi assinada em cerimônia que reuniu o governador Jerônimo Rodrigues, o ministro-chefe da Casa Civil, Rui Costa, dentre outras autoridades. O investimento, superior a R$ 34 milhões, integra o Novo PAC e inclui ainda a construção de um centro comunitário esportivo. Para o governo, trata-se de uma ação estratégica que une educação e esporte para ampliar oportunidades e fortalecer a cidadania.

No discurso oficial, o governador afirmou que os investimentos vão contribuir para um futuro melhor para Jequié e região, ampliando o acesso ao ensino superior público e fortalecendo a formação da juventude. O problema, segundo apontam lideranças sociais, movimentos populares, estudantes e campanhas da imprensa regional, é que Jequié já parte de uma posição privilegiada no mapa educacional da Bahia. Além de já contar com acesso ao ensino superior público em seu próprio território (UESB), um estudante de Jequié, possui ainda a opção de percorrer apenas cerca de 130 quilômetros para chegar a Vitória da Conquista, outro grande polo universitário do estado. Trata-se de um deslocamento relativamente curto e viável, o que amplia as possibilidades de permanência nos estudos.

A realidade é completamente distinta para um jovem de Oliveira dos Brejinhos, na Bacia do Paramirim, por exemplo. Sem nenhuma universidade pública na região, esse estudante precisa viajar aproximadamente 417 quilômetros até Vitória da Conquista ou cerca de 600 quilômetros até Salvador. Na prática, isso significa custos elevados, longas jornadas de deslocamento, afastamento da família e, muitas vezes, a desistência do sonho da formação superior. Aos mais resilientes, resta as EADs pagas, que também serão dificultadas em breve.

Enquanto Jequié amplia sua estrutura educacional, a Bacia do Paramirim e o chamado Sertão Produtivo seguem à margem. Trata-se de um vasto território com centenas milhares de habitantes que, historicamente, não contam com nenhuma universidade pública. A única promessa recente foi a implantação de um campus do Instituto Federal em Macaúbas, anúncio que não avançou além do papel. Fora isso, não há qualquer perspectiva concreta de investimentos do Novo PAC voltados à construção de uma universidade pública para a região.

Jovens desses municípios continuam sendo obrigados a sair de casa, deixar suas famílias e enfrentar dificuldades financeiras para tentar uma vaga em outros centros, numa rotina marcada por deslocamentos exaustivos, evasão escolar e frustração. Para muitos, o ensino superior segue sendo um privilégio distante, não um direito garantido.

O sentimento predominante na região é de revolta e cansaço. Mais uma vez, os investimentos foram direcionados para onde já existe estrutura, aprofundando um vácuo educacional que se arrasta há décadas. A crítica é direta, enquanto regiões inteiras cujas populações numerosas imploram por acesso à educação, recursos públicos expressivos são concentrados em áreas já atendidas. Para a população da Bacia do Paramirim, isso soa como levar água para o mar, deixando a seca onde ela sempre esteve.

“É um tapa na cara de quem sonha e espera por uma universidade pública na Bacia do Paramirim e no Sertão Produtivo”, resume uma liderança envolvida nas mobilizações. “Nossos jovens seguem sem perspectivas locais, enquanto assistem, de longe, aos investimentos passarem.”

O descontentamento cresce diante da constatação de que a região praticamente não aparece entre os grandes projetos estruturantes anunciados pelo governo. A ausência de políticas efetivas reforça a percepção de descaso e abandono institucional, denunciada há anos por movimentos populares, estudantes organizados e campanhas persistentes da imprensa regional. As cobranças vão além da educação, a população segue alimentando o sonho de obras consideradas libertadoras, como a implantação de um hospital regional e de uma faculdade pública capaz de transformar a realidade econômica, social e humana do território. Para quem vive na região, educação e saúde não são favores, mas direitos sistematicamente negados.

Neste período pré-eleitoral, lideranças, movimentos sociais e estudantes afirmam que a pressão deve  aumentar. As reivindicações estão postas, os números falam por si e o silêncio já não é mais aceitável. A luta vai continuar e a população seguirá cobrando, com a convicção de que desenvolvimento não pode ser privilégio de poucos, mas compromisso com todos.