Com estratégia silenciosa, apoio de ex-prefeitos magoados e foco nos distritos populosos, Neto tenta virar o jogo e romper o domínio do PT no interior da Bahia

Nos bastidores da política baiana, a oposição liderada por ACM Neto prepara uma ofensiva estratégica, discreta e milimetricamente pensada para diminuir a supremacia do PT na zona rural e elevar suas chances na disputa ao governo estadual em 2026. Após a derrota em 2022, estrategistas do União Brasil identificaram nos redutos rurais o verdadeiro calcanhar de Aquiles de Neto, onde Jerônimo Rodrigues saiu vitorioso com larga vantagem.

Agora, o jogo é outro. A ordem dentro do núcleo duro da oposição é clara: mapear, sondar, negociar e conquistar lideranças nos grandes distritos rurais, onde vivem entre 8 mil e 20 mil habitantes, como Itamotinga (Juazeiro), Pilar (Jaguarari), Sambaíba (Itapicuru), Posto da Mata (Nova Viçosa), Vila do Café (Encruzilhada), Taboquinhas (Itacaré), Bom Sossego e Ipuçaba (Oliveira dos Brejinhos), Itabatã (Mucuri), Suçuarana (Tanhaçu), Salobro (Canarana), Santana do Sobrado (Casa Nova), Bravo (Serra Preta), Iguatemi e Itanagé (Livramento de Nossa Senhora), Cristalândia, Ubiraçaba e Umburanas (Brumado), Caroatá e Favelândia (Bom Jesus da Lapa) e Entroncamento de Jaguaquara. São alguns dos territórios dominados pela agricultura familiar, tradicional reduto petista, que passarão a ser prioridade da oposição.

O movimento tem se desenhado em absoluto silêncio, como forma de escapar do radar do Palácio de Ondina e evitar que o governo Jerônimo aja com rapidez para segurar lideranças locais. A articulação envolve prefeitos, ex-prefeitos, vereadores, formadores de opinião e, principalmente, aqueles que se sentem traídos ou esquecidos pela base governista. O clima é de mágoa em parte considerável de ex-aliados do PT, especialmente ex-prefeitos que apoiaram Jerônimo em 2022, mas não foram recompensados politicamente. Esses têm sido alvos diretos do grupo de ACM Neto, que aposta num resgate dessas figuras para fortalecer palanques no interior.

A missão, no entanto, é considerada “dura” até por aliados de Neto. Afinal, o governo estadual mantém forte presença nos rincões com programas sociais ativos e boa articulação política. Ainda assim, há um entendimento interno de que, mesmo com o domínio nas maiores cidades, Neto não poderá mais desprezar os 25% do eleitorado baiano que vive no campo. A meta é clara: atrair o máximo de lideranças locais, distrito por distrito, cidade por cidade, começando pelos maiores redutos e descendo para os pequenos municípios onde o ex-prefeito de Salvador foi derrotado por margem expressiva.

Nos bastidores, há queixas. Alguns prefeitos e ex-prefeitos, inclusive de cidades estratégicas como Luís Eduardo Magalhães, Jequié, Itapetinga, Guanambi e Paulo Afonso, têm criticado o que chamam de “distância” e “falta de diálogo” da liderança de Neto. Em entrevistas recentes, o prefeito Júnior Marabá chegou a dizer que nunca se sentiu reconhecido pela oposição, e que muitos aliados se sentem órfãos. Apesar disso, a cúpula de ACM Neto ainda acredita que é possível reverter parte dessas perdas com ações coordenadas e uma nova postura de escuta ativa nos próximos meses.

Uma das peças centrais dessa engrenagem será o ex-ministro da Cidadania, João Roma, que já garantiu vaga na chapa de Neto ao Senado. Roma tem forte penetração no interior, é exímio articulador e está encarregado, junto com aliados ligados à prefeitura de Salvador, de negociar com dezenas de ex-prefeitos insatisfeitos com o governo Jerônimo. A costura política inclui promessas de visibilidade, espaço nas campanhas locais e eventual participação em futuras gestões.

Paralelamente, ACM Neto tem endurecido o discurso contra Jerônimo, acusando o governador de praticar “política de cooptação” ao só liberar obras e ações para prefeitos que votam com o PT. A narrativa da oposição busca reforçar a ideia de que a atual gestão exclui quem pensa diferente e administra com base em critérios políticos, e não técnicos.

Com pouco mais de um ano até o próximo pleito estadual, ACM Neto aposta em uma virada silenciosa, costurada nas sombras, mas carregada de expectativa. Se conseguirá romper a hegemonia do PT no interior e transformar insatisfações em votos, o tempo dirá. Mas uma coisa é certa: o jogo está sendo jogado, palmo a palmo, bem longe dos holofotes.