Apesar de ser berço das principais nascentes que abastecem a Barragem do Zabumbão, Érico Cardoso segue poluindo rios e permitindo destruição ambiental

O Jornal O Eco volta a acender o sinal de alerta para uma tragédia anunciada no Vale do Paramirim. Não é de hoje que denunciamos a degradação ambiental que ameaça diretamente a Barragem do Zabumbão, responsável pelo abastecimento de água potável de mais de 300 mil pessoas na região. Apesar das inúmeras reportagens, apelos e cobranças publicados ao longo dos anos, o cenário não só permanece o mesmo como piora a cada dia.

Érico Cardoso, município que abriga a maior parte das nascentes que alimentam o Rio Paramirim e o próprio Zabumbão, continua sendo palco de crimes ambientais diários. Pedreiras destroem serras inteiras, garimpos ilegais avançam, matas nativas desaparecem e toneladas de esgoto in natura são despejadas nos leitos dos rios sem qualquer tratamento. Tudo isso diante da inércia de quem deveria liderar a defesa do patrimônio natural.

Na última sexta-feira (08), o I Seminário Territorial de Gestão Ambiental Compartilhada, idealizado pelo competente diretor executivo do Consórcio Público de Desenvolvimento Sustentável da Bacia do Paramirim, Dr. Leonardo Costa, pretendia mobilizar autoridades e gestores para frear a devastação. O evento, no entanto, foi marcado pela baixa participação de prefeitos e pela ausência de compromissos concretos. Mais uma vez, discursos vazios, passeios por regiões menos afetadas tomaram o lugar de ações efetivas.

Entre as ausências mais sentidas, também chamou atenção a presença pouco expressiva de representantes de órgãos ambientais, ou pelo menos, figuras com poder de decisão, para especialistas, pesou a influência negativa de ex-presidentes de Comitês de Bacia que, se autoproclamam defensores do meio ambiente, mas na prática fecharam os olhos para crimes ambientais graves. Alguns, inclusive, foram coniventes com irrigações ilegais e permitiram a continuidade de atividades predatórias em pedreiras que destroem áreas serranas estratégicas para a preservação das nascentes.

O caso das pedreiras é emblemático: toneladas de pedras de alto valor são retiradas diariamente de reservas naturais como Barra, Xavier e outras localidades, isso sem falar na total destruição do Morro do Fogo. Nessas áreas, as serras estão sendo literalmente cortadas ao meio, a vegetação nativa devastada e as fontes de água, antes perenes, transformadas em filetes ou simplesmente secas. O impacto é irreversível a curto prazo e ameaça diretamente o equilíbrio hídrico de toda a região.

Para piorar, o prefeito de Érico Cardoso, que deveria ser o primeiro a dar exemplo, mantém uma postura incoerente: fala sobre preservação ambiental enquanto permite que nascentes sejam destruídas e que esgoto continue poluindo as águas que abastecem milhares de famílias. Recursos para combater essa degradação sempre parecem escassos, mas não para festas e eventos que nada contribuem para a saúde do meio ambiente.

Nosso jornal já noticiou, em diversas ocasiões, que a situação das nascentes no município beira o caos. O risco de colapso hídrico é real e crescente. Se nada for feito, o Zabumbão, que já sofre com estiagens e uso excessivo para irrigação poderá não ter capacidade para atender a população da região nos próximos anos. Daí a necessidade urgente de conclusão da Barragem do Rio do Caixa, que segundo o governo, será interligada aos sistemas de abastecimento existentes.

Esse é um apelo que não pode mais ser ignorado, o Eco reforça que não será uma reunião, discursos afinados e pactos regionais que resolverão a tragédia anunciada. Apenas uma força-tarefa envolvendo o Governo Federal, o Governo da Bahia, o consórcio regional, órgãos fiscalizadores e todos os gestores municipais poderá reverter este quadro. É urgente coibir a destruição das serras, recuperar as matas ciliares, tratar o esgoto despejado nos rios e garantir fiscalização contínua sobre as atividades econômicas que ameaçam as nascentes.

Não se trata de um problema futuro, a crise já está em curso. Ignorar os sinais é escolher assistir de braços cruzados ao desabastecimento e à morte de um patrimônio natural que levou séculos para se formar. Prefeitos aceitando migalhas, reformas de trechos de estradas ofertadas por fortes pedreiras, que levam daqui diariamente bilhões e deixam para trás a devastação. O Vale do Paramirim precisa, mais do que nunca, de coragem política, de liderança verdadeira e de compromisso real com o meio ambiente. O tempo para agir é agora.