A devoção que move corações, une histórias e transforma a vida de um povo. Neste 8 de setembro de 2025, o presidente Lula sancionou a lei que reconhece oficialmente a Romaria da Lapa como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil
Um gesto histórico do governo federal transformou em lei aquilo que já está gravado na alma do povo nordestino, a fé em Bom Jesus da Lapa. Neste 8 de setembro de 2025, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a lei que reconhece oficialmente a Romaria de Bom Jesus da Lapa como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. A decisão chega como uma consagração à devoção que, há séculos, percorreu estradas poeirentas, grutas e altares, sustentando gerações de romeiros que fazem da caminhada uma oração.
A história dessa fé, remonta ao século XVII, quando o português Francisco de Mendonça Mar, injustiçado em Salvador, buscou refúgio espiritual nas margens do Rio São Francisco. Em 1691, encontrou a gruta que se tornaria o berço de uma devoção eterna. Ali, levou consigo as imagens do Senhor Bom Jesus e de Nossa Senhora da Soledade, ergueu um pequeno oratório e, sem imaginar, deu início a um dos maiores fenômenos religiosos do Brasil.
Hoje, a romaria oficial acontece entre 28 de julho e 6 de agosto, mas a cidade recebe fiéis o ano inteiro. São até dois milhões de pessoas vindas da Bahia, de Minas Gerais, de Goiás e de tantos outros cantos. A cada passo, o sertão se enche de vida, ônibus lotados de caravanas, caminhadas que viram verdadeiras expedições de fé, cantorias que embalam as noites de vigília e cozinhas improvisadas nas estradas que alimentam corpo e espírito.
A romaria é também palco de encontros e histórias que transformam vidas. Romeiros dividem a mesma hospedaria e, entre um descanso e outro, se encontram em passeios pelo outro lado do Rio São Francisco, onde conversas surgem nos restaurantes nativos, sob a sombra de cajueiros e nas margens tranquilas do “Velho Chico”. É nesses momentos que amizades se consolidam, romances se iniciam e até famílias se formam. Um jovem casal que se conheceu numa travessia de balsa recentemente retornou à Lapa com seus filhos, sob as lentes da equipe do Jornal O Eco, para ensinar às novas gerações a fé que os uniu. Indescritíveis são as emoções vividas no lugar, crianças admiradas, contemplam as margens do rio, enquanto os adultos se deliciam com as especiarias, com destaque para a moqueca de surubim. Da Barrinha, admiram as belezas do morro e compartilham promessas, histórias e bênçãos alcançadas.
Selma Rodrigues e Alvino Freire, de Serra Dourada, são exemplos dessa fé viva. Percorreram 76 km a pé em quatro dias, cumprindo promessa pela cura de um câncer de mama de Selma. “Se fosse para voltar de novo, voltaria, só o Bom Jesus pode fazer isso. Os médicos ajudam, mas só Ele cura”, contou, emocionada. Multiplicam-se relatos de milagres, de jovens curados de doenças graves, de famílias que encontraram força na caminhada e transformaram suas vidas na fé e no amor que brota da Lapa.
O fenômeno da romaria também movimenta a economia da região. Pousadas e hotéis ficam lotados, vendedores ambulantes garantem sustento, agricultores encontram novos mercados e cidades vizinhas organizam caravanas para enviar e receber romeiros. Cada passo na estrada é também um passo de fortalecimento econômico e social, mostrando que fé e vida se entrelaçam no sertão baiano.
O reconhecimento legal abre espaço para investimentos em segurança, infraestrutura e acolhimento, mas, acima de tudo, consagra algo que o povo já sabe, Bom Jesus da Lapa é casa de esperança, altar do sertão e ponto de encontro de corações, histórias e destinos.
Mais do que uma festa religiosa, a Romaria da Lapa é um pedaço da alma do povo brasileiro, escrita em cada lágrima derramada na gruta, em cada amizade feita nas estradas, em cada família que nasceu à sombra da fé e do Rio São Francisco, onde promessas, encontros e milagres se entrelaçam.






