Enquanto a direção nacional apela por prudência, o AVANTE baiano já se fortaleceu nas bases, foi o partido que mais cresceu em prefeitos e vereadores, muitos ligados a quem votou em ACM Neto e agora busca protagonismo nas alianças estaduais

O AVANTE na Bahia caminha com aparente ambiguidade, oficializou no evento de novas filiações ocorrido na última segunda-feira (06) em Salvador, que ainda não definirá alianças para 2026, mas já acumula poder na Bahia e ambições para compor a chapa majoritária. No evento de filiação de novas lideranças, o deputado Luís Tibé, presidente nacional da sigla, afirmou que “ainda é cedo” para tratar apoios eleitorais, e que os debates internos só ocorrerão após o primeiro semestre de 2026.

Porém, em todo o estado, o discurso de cautela convive com uma trajetória expressiva de expansão política. Nas eleições municipais de 2024, o AVANTE obteve resultados notáveis, a sigla saltou de 4 prefeitos em 2020 para 60 prefeituras conquistadas em 2024, um crescimento de 1.400% segundo levantamento regional. Pouco depois da eleição, estimava-se que o Avante baiano respondia por 44% das prefeituras eleitas pela legenda em todo o Brasil, consolidando-se como o partido que mais cresceu na Bahia em número de prefeitos, vice-prefeitos e vereadores.

Esse vigor eleitoral dá ao partido densidade para reivindicar presença efetiva na configuração da coligação estadual. O presidente estadual, Ronaldo Carletto, não disfarça que o AVANTE pretende compor a chapa majoritária do governador Jerônimo Rodrigues (PT) e já trabalha nos bastidores para garantir esse espaço. Ele invoca o desempenho em 2024, em que o partido renovou drasticamente sua presença municipal como fundamento de poder de negociação.

Outro elemento que reforça essa estratégia é o perfil político das novas lideranças municipais, muitos dos prefeitos eleitos sob a bandeira do Avante vinham de alianças com ACM Neto em 2022. Esses quadros, embora agora filiados ao AVANTE, mantêm um histórico de pragmatismo político e, segundo interlocutores, não teriam grandes dificuldades em aderir a uma eventual decisão partidária de 2026, mesmo que essa represente um reposicionamento estratégico da legenda.

Mesmo sendo aliado do governo baiano, o AVANTE que, pelos indícios, deve marchar junto com Jerônimo Rodrigues em 2026, figura neste momento como o fiel da balança na política estadual. Trata-se de um grupo que pode, efetivamente, fazer a diferença no equilíbrio das forças da base. Ciente desse poder de fogo, o governador tem buscado manter um canal de diálogo permanente com a cúpula do partido e atender às demandas apresentadas por seus líderes.

Essas demandas, contudo, não são pequenas, envolvem espaços na gestão, participação mais ampla em decisões políticas, sobretudo obras de médio e grande porte em regiões estratégicas, além, é claro, da garantia de presença na chapa majoritária de 2026. Caso essas expectativas não sejam correspondidas, há quem avalie que a parceria entre PT e AVANTE pode entrar em zona de tensão e até colocar em risco a unidade do grupo governista.

O deputado federal Neto Carletto, sobrinho de Ronaldo e voz ativa da nova geração do AVANTE, reforça essa postura ambiciosa. Ele defende metas ousadas, eleger sete deputados estaduais e quatro federais na Bahia e alçar o nome do tio à chapa majoritária. O discurso traduz a confiança da sigla no potencial de crescimento e no protagonismo político que vem conquistando.

O dilema, no entanto, é equilibrar o discurso de independência que prevalece no plano nacional com as aspirações locais. Luís Tibé sustenta que o AVANTE nacional ainda está aberto a diversos cenários. Mas, na prática, o partido na Bahia já demonstra força e clareza estratégica, expandiu suas bases, multiplicou seu capital político e se tornou peça-chave no tabuleiro estadual. Uma legenda que, a depender de como for tratada, poderá definir o rumo das alianças em 2026.