Entre promessas, incertezas e o desgaste de duas décadas do PT, a Bahia vive um momento de indefinição

O Estado vive um daqueles momentos em que a política se torna espelho do próprio tempo; instável, acelerada e repleta de dúvidas. O governador Jerônimo Rodrigues (PT), que tenta a reeleição em 2026, enfrenta um cenário de equilíbrio delicado entre conquistas administrativas, promessas não cumpridas e um eleitorado cada vez mais exigente. Embora o governador afirme contar com a “maioria absoluta dos prefeitos e lideranças” do estado, ele próprio reconheceu, que as pesquisas apontam para um suposto empate técnico nas intenções de voto entre ele e o ex-prefeito de Salvador, ACM Neto (União Brasil).

O avanço das redes sociais e a disseminação vertiginosa de informações vêm mudando a forma como os baianos encaram a política. A população, mais informada e crítica, já não se deixa guiar apenas pela lógica partidária tradicional. Não seria surpresa se, em 2026, muitos eleitores decidissem manter o apoio ao presidente Lula, mas optassem por eleger a oposição na Bahia, em um gesto de resposta ao desgaste acumulado após duas décadas de domínio petista no estado.

Dentro do próprio grupo governista, as tensões são visíveis. Crescem as intrigas internas e as disputas por espaço na chapa majoritária, somadas à insatisfação de partidos aliados que se queixam de promessas não cumpridas e da falta de entrega de grandes obras anunciadas. Lideranças regionais, antes fiéis ao governo, começam a demonstrar descrença diante de projetos que, até agora, não saíram do papel.

A história recente serve de alerta. Paulo Souto, em seu tempo, chegou a ter o apoio declarado de mais de 300 prefeitos e ainda assim foi derrotado, vítima do desgaste natural de um grupo que envelheceu politicamente sob a liderança do cacique ACM. Hoje, o mesmo fantasma parece rondar Jerônimo Rodrigues. Pesquisas internas e regionais, realizadas pelo Jornal O Eco em cidades do Sertão Produtivo, Vale do Paramirim e Chapada Diamantina, apontam crescimento expressivo das intenções de voto em ACM Neto para 2026. Esse avanço preocupa o núcleo político do governador, especialmente porque essas regiões, o coração do sudoeste baiano, sempre foram redutos petistas, com votações históricas que chegavam em média a 70%.

Certamente, o próprio governo acompanha de perto esses movimentos. É natural supor que existam levantamentos internos e estratégias de monitoramento sendo usados para tentar reverter a tendência. Ainda assim, há um dado novo e inescapável: o eleitor baiano de hoje parece menos disposto a vincular seu voto local ao prestígio de Lula. Muitos sabem que programas federais como o Bolsa Família, o Gás da Gente ou o Pé-de-Meia não dependem diretamente do governador e não correm risco de extinção com uma eventual derrota de Jerônimo. Essa consciência, antes restrita, agora se espalha e muda o cálculo político.

A Bahia, estado de profundas desigualdades, vive o paradoxo entre a gratidão e a fadiga. O PT, ao longo de 20 anos, ampliou políticas sociais, interiorizou universidades e reforçou a presença do Estado. Mas o tempo cobra renovação, de ideias, de rostos e de resultados. Se o governo quiser reconquistar o povo do sertão, precisará mais do que marketing e alianças, terá que, necessariamente, atender demandas concretas, corrigir rotas e voltar a dialogar com uma população que clama por progresso, liberdade e paz.

Entre o benefício da dúvida e o custo da inércia, a Bahia caminha para uma eleição que testará não apenas a força de Jerônimo Rodrigues, mas também a capacidade do próprio grupo situacionista de se reinventar diante de um eleitorado que já não aceita promessas como substituto de resultados.