Prefeitos desanimados, base em fricção e a busca por novas rotas revelam que o PT vive o desgaste natural de quase duas décadas no comando da Bahia

Na Bahia, o interior começa a enviar sinais claros de cansaço político. Depois de quase vinte anos de hegemonia do PT, o fio que sustentava a aliança entre o governo estadual e os municípios parece cada vez mais tênue. Prefeitos e lideranças locais, antes entusiasmados defensores do projeto petista, agora agem com cautela ou com silêncio. Um silêncio que fala alto, denunciando a fadiga de um ciclo que já não inspira nem entrega.

O governador Jerônimo Rodrigues, que chegou ao cargo em 2023 prometendo continuidade e diálogo, tornou-se o ponto de convergência de líderes, mas, descontentamento da população interiorana. Pesquisas recentes indicam que, mesmo com “apoio”, especialmente em cidades pequenas e médias, já é visível a queda nas intenções de voto, onde o PT sempre teve vantagem confortável. São locais como o Vale do Paramirim, que sonha há anos com um hospital regional, uma faculdade pública e obras estruturantes que nunca saíram do papel. O sentimento de abandono cresce na mesma proporção da descrença.

Nos bastidores, prefeitos reclamam do que chamam de “apagão de atenção”. As agendas com o governo estadual se tornaram insatisfatórias, os repasses atrasam ou não saem, e as respostas às demandas básicas de água a infraestrutura, são cada vez mais vagas. O discurso da parceria se mantém, mas a prática revela um Estado distante, engessado por disputas internas, parcos recursos e amarras políticas. O resultado é um governo que fala em união, mas transmite desalento.

Enquanto isso, o comportamento dos gestores municipais mudou. Poucos enfrentam abertamente o governo, mas muitos já pensam em cruzar os braços. A estratégia é aguardar. Esperar para ver quem, afinal, oferecerá as melhores condições políticas e financeiras para sustentar as gestões locais. É o tipo de silêncio que, em política, costuma anunciar revoadas.

Essa quietude desconfortável tem razões mais profundas. A base aliada vive momentos de tensão e desconfiança, sobretudo após as divergências pela composição para a chapa majoritária, que deixam cicatrizes em diversos grupos do interior. Muitos se sentiram preteridos, outros enxergam favoritismos e pouca abertura para novos nomes. A sensação generalizada é de que o governo perdeu o sentido de renovação e onde falta perspectiva, sobra cálculo político.

Do outro lado, a oposição, liderada por ACM Neto, observa o cenário com atenção. O ex-prefeito de Salvador ganhou musculatura ao manter prefeituras estratégicas e hoje representa, para boa parte dos descontentes, uma rota de fuga viável. Ainda que mantenham discrição, lideranças municipais começam a construir pontes alternativas. E, na política baiana, pontes silenciosas costumam levar a mudanças ruidosas.

A força de Lula ainda é expressiva no estado, e seu nome segue imbatível nas pesquisas. Mas o eleitor do interior, mais pragmático do que ideológico, tem demonstrado disposição para separar o carisma do líder nacional da avaliação do governo local. Esse é o ponto de inflexão que preocupa o núcleo petista. Se o governo estadual continuar a perder o pulso das ruas e das prefeituras, o pleito de 2026 pode se tornar o palco de uma virada inesperada.

O desafio de Jerônimo é enorme. Precisa recuperar a confiança da base, reativar o diálogo com os prefeitos e mostrar resultados tangíveis e rápidos. Sem isso, o governo corre o risco de se tornar refém de si mesmo, cercado por aliados que fingem fidelidade enquanto já traçam novos caminhos. O interior baiano, outrora a força motriz das vitórias petistas, hoje reflete e pondera. Entre a lealdade e o pragmatismo, cresce a convicção de que o ciclo pode estar se encerrando. E, como a história política ensina, é do silêncio dos aliados que nascem as grandes rupturas.