Após massacre, governo federal envia comitiva ao Rio e autoriza transferência de presos ligados a facções para presídios de segurança máxima. Especialistas alertam para risco de nova escalada da violência.

O Rio de Janeiro voltou a ser palco de cenas de guerra. Uma megaoperação das forças de segurança do estado, deflagrada nas comunidades do Complexo do Alemão e da Penha, resultou em pelo menos 64 mortes e mais de 80 prisões. A ação, considerada a mais letal da história recente do país, tinha como alvo o Comando Vermelho, principal facção criminosa do estado. Em meio à crise, o governo federal anunciou o envio de uma comitiva à capital fluminense e a transferência imediata de presos ligados ao crime organizado para penitenciárias federais de segurança máxima.

A operação começou ainda na madrugada de terça-feira (28) e mobilizou mais de 2.500 agentes da Polícia Civil e da Polícia Militar, com apoio de helicópteros, drones e veículos blindados. Durante horas, moradores ficaram presos dentro de casa, enquanto o som de tiros e explosões ecoava pelas ruas. Ônibus foram incendiados e usados como barricadas, vias expressas como a Linha Amarela e a Avenida Brasil foram bloqueadas, e dezenas de escolas suspenderam as aulas. “Foi um inferno, parecia uma guerra. A gente não sabia se o próximo tiro ia entrar pela janela”, contou uma moradora da Penha.

Diante do impacto nacional da tragédia, o Palácio do Planalto convocou uma reunião de emergência para tratar da situação. O encontro foi coordenado pelo presidente em exercício, Geraldo Alckmin, e contou com a participação de ministros da Casa Civil, Justiça, Direitos Humanos e representantes do Exército e da Polícia Federal. O governador Cláudio Castro participou por telefone e pediu apoio federal, alegando que o estado estava “sozinho” no enfrentamento ao crime e que o governo federal havia negado pedidos anteriores de empréstimo de blindados. Fala que foi prontamente rebatida pelo Ministro Rui Costa, retrucando que o governador nunca havia pedido ajuda ao governo federal.

Após a reunião, o governo anunciou a criação de um grupo de trabalho conjunto entre União e estado, além da disponibilização de vagas em presídios federais para criminosos de alta periculosidade. Uma comitiva liderada pelos ministros Rui Costa (Casa Civil) e Ricardo Lewandowski (Justiça) desembarca no Rio nesta quarta-feira (29) para discutir as próximas medidas de segurança e cooperação.

Apesar da resposta emergencial, a tragédia reacendeu o debate sobre o modelo de combate ao crime no Brasil. Especialistas apontam que as ações baseadas apenas em confrontos armados, sem políticas de inteligência e integração social, têm se mostrado ineficazes e custado caro à população. A operação, segundo analistas, expôs a falta de coordenação entre os governos e revelou o poder crescente das facções, que contam com armamentos pesados e tecnologia avançada, incluindo drones e rádios criptografados.

Organizações de direitos humanos criticaram a letalidade da operação e pedem investigação independente sobre as mortes, já que há relatos de vítimas civis entre os mortos. O governo federal, por sua vez, descartou por enquanto a decretação de uma Garantia da Lei e da Ordem (GLO), preferindo reforçar o trabalho conjunto das forças de segurança.

Enquanto o país debate responsabilidades, o medo segue dominando as ruas do Rio. Para os moradores, a rotina de incerteza parece longe do fim. E para o resto do Brasil, especialmente nas cidades do interior, o episódio serve como alerta: o crime organizado não é mais um problema apenas das grandes capitais, mas uma ameaça nacional que exige ação coordenada, inteligência e presença permanente do Estado, não apenas quando o sangue já foi derramado.