Publicação emocionante de Dr. João Ricardo viraliza nas redes sociais e comove a região ao expor o drama de cerca de cem famílias que vivem há décadas sem água potável, enquanto a concessionária ignora simples pedidos de ligação elétrica
Em pleno século XXI, quando tanto se fala em direitos humanos e desenvolvimento sustentável, cerca de cem famílias da comunidade da Noruega, na zona serrana de Paramirim, convivem com a sede e o esquecimento. Habitam a poucos quilômetros do maior reservatório de água da região, mas não têm acesso a uma gota sequer de água encanada.
O motivo é tão absurdo quanto revoltante, a Coelba/Neoenergia, concessionária responsável pela distribuição de energia elétrica na Bahia, não realizou as ligações necessárias para ativar as estações elevatórias que bombeiam água para essas famílias. O sistema está pronto desde 2016, com mais de 50 quilômetros de tubulação instalados e um investimento público de R$ 1,4 milhão via Codevasf. No entanto segue parado, sem energia, sem vida e sem esperança.
Indignado com a negligência e a insensibilidade da concessionária, o prefeito João Ricardo Brasil Matos fez um apelo público emocionante nas redes sociais, intitulado “Uma Esmola pelo Amor de Deus”. No texto, o gestor denuncia o absurdo da situação e pede, com indignação, que a empresa atenda aos três pedidos de ligação de energia já protocolados há tempos, referentes às estações de Capão, Alecrim e Olho D’Água.
“Esperamos que o município seja merecedor dessa esmola, cujo pedido se faz pelo amor de Deus, sem, é claro, usar o nome em vão”, escreveu o prefeito, num desabafo que viralizou rapidamente.
A publicação alcançou milhares de compartilhamentos e gerou comoção e revolta entre os moradores de Paramirim e de toda a região. Muitos comentários relataram casos semelhantes de omissão e demora nos serviços da Coelba, denunciando interrupções constantes, prejuízos por oscilações elétricas e a falta de atenção com as comunidades rurais.
A situação das famílias da Noruega é um retrato cruel da desigualdade no semiárido baiano. Elas sobrevivem de carros-pipa e poços artesianos de baixa vazão, um improviso que não garante segurança nem dignidade. Tudo o que falta é energia para ligar as bombas que fariam a água correr pelas torneiras, um gesto simples, de responsabilidade da concessionária, mas que significaria uma transformação social imensurável.
“Estamos falando de água encanada para quem tem sede e tem direito”, destacou o prefeito em sua nota.
A Coelba / Neoenergia, detentora do monopólio da distribuição elétrica no estado, tem o dever legal de atender todas as regiões, inclusive as rurais e de baixa densidade populacional. O contrato de concessão obriga a empresa a registrar e cumprir solicitações de ligação, prestando um serviço de utilidade pública prioritária. Entretanto, na prática, o que se vê é um histórico de reclamações por demoras injustificadas, falhas constantes e postura insensível diante da população mais vulnerável. Enquanto o lucro da empresa cresce, o sentimento de abandono se espalha.
O pedido do prefeito, por mais simbólico que pareça, escancara uma realidade dolorosa, cem famílias esperam há quase dez anos por um direito básico, água potável. Três simples ligações elétricas podem devolver esperança, saúde e dignidade a uma comunidade inteira. “Uma esmola pelo amor de Deus”, escreveu o gestor, não como gesto de submissão, mas como denúncia pública de um sistema que obriga o cidadão a implorar por aquilo que já é seu por direito.
Enquanto o município aguarda resposta da concessionária, o povo da Noruega mantém viva a fé de que um dia a água vai correr pelos canos já instalados, levando além de alívio físico, a sensação de que foi finalmente visto e respeitado.
Não se trata de caridade, trata-se de justiça social e de um grito que ecoa do sertão baiano para todo o país, por dignidade, por empatia e pelo direito sagrado à água.
