O embate entre endurecimento e estratégia revela disputa política por protagonismo na pauta da segurança pública após a morte de 121 pessoas na operação mais letal da história do país

A megaoperação policial que deixou 121 mortos nas comunidades da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro, reacendeu o debate sobre o combate ao crime organizado e expôs uma disputa política crescente entre governadores de direita e o governo federal. O episódio, classificado como a operação mais letal da história do Brasil, desencadeou reações imediatas em todo o país. Enquanto parte dos governadores exaltou a ação como exemplo de força e eficiência policial, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seus ministros reforçaram a necessidade de uma política de segurança pública baseada em inteligência, integração federativa e respeito aos direitos humanos.

Na esteira da operação, seis governadores e uma vice-governadora, todos alinhados à direita, se reuniram no Rio de Janeiro para manifestar apoio ao governador Cláudio Castro e anunciar a criação do “Consórcio da Paz”, um bloco interestadual com a promessa de articular ações conjuntas contra o crime organizado. O grupo reúne nomes de destaque político nacional, como Tarcísio de Freitas, Romeu Zema e Ronaldo Caiado, todos potenciais candidatos à Presidência em 2026. O encontro, porém, teve tom mais político do que técnico, além de defender a autonomia dos estados e elogiar a atuação das forças policiais fluminenses, os governadores aproveitaram o momento para criticar o governo Lula, acusando-o de omissão e falta de apoio.

O movimento foi visto por analistas como uma tentativa de resgatar a bandeira da segurança pública, símbolo de governos conservadores e de ocupar o espaço deixado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, hoje inelegível. A criação do consórcio foi saudada por apoiadores como demonstração de força, mas duramente criticada por setores da esquerda, que ironizaram o nome do grupo, chamando-o de “Consórcio da Morte”. Para críticos, o discurso de exaltação à letalidade mascara a ausência de políticas duradouras e sustentáveis no enfrentamento à criminalidade.

Em contraste, o governo federal adotou uma linha de comunicação que privilegia resultados estruturais. Em vídeo divulgado nas redes sociais, o presidente Lula afirmou que “matar 120 pessoas não adianta nada” e que o verdadeiro combate ao crime organizado exige atacar “o cérebro e o coração das facções”, e não multiplicar confrontos armados. O governo cita como exemplo a Operação Carbono Oculto, da Polícia Federal, que desarticulou um esquema do PCC ligado ao setor de combustíveis e ao mercado financeiro em São Paulo. A estratégia do Planalto tem sido mirar as engrenagens financeiras e logísticas das facções, enfraquecendo sua capacidade de operação por meio de investigações e cooperação entre órgãos federais.

Além disso, o Ministério da Justiça anunciou a criação de um Escritório Emergencial de Combate ao Crime Organizado no Rio, com participação da Polícia Rodoviária Federal e da Polícia Federal, reforçando o argumento de que o governo federal não se omite, mas atua de forma planejada e coordenada. A medida foi recebida com desconfiança por alguns governadores, que a interpretam como tentativa de controle federal sobre as políticas estaduais.

O embate entre os dois blocos reflete mais do que divergências sobre segurança, representa visões opostas sobre o papel do Estado na repressão ao crime e na preservação da vida. De um lado, governadores apostam em ações ostensivas e na retórica do “enfrentamento direto”, buscando apoio popular em um país traumatizado pela violência. De outro, o governo federal tenta consolidar uma agenda que privilegia inteligência, cooperação institucional e políticas de longo prazo.

O desafio para ambos os lados é o mesmo, oferecer respostas concretas a uma população que convive com o medo diário e que, cansada da ineficácia das políticas públicas, tende a apoiar soluções imediatistas. Enquanto os governadores transformam a segurança pública em bandeira política e instrumento de coesão entre lideranças conservadoras, o governo Lula aposta em uma estratégia mais silenciosa, mas potencialmente mais profunda, a de enfraquecer as estruturas econômicas e organizacionais do crime, em vez de multiplicar confrontos que deixam rastros de sangue.