Descargas irresponsáveis, poluição e seca prolongada colocam em risco o abastecimento de nove municípios do Vale do Paramirim
O cenário é grave e exige reação imediata, a Barragem do Zabumbão, principal fonte de água potável do Vale do Paramirim, registrou em 1º de novembro de 2025 apenas 35,23% do seu volume útil, de acordo com dados da ANA – Agência Nacional de Águas. O dado, alarmante é agravado por uma sequência de descargas de água realizadas para irrigação privada, em plena estiagem que já se arrasta por meses. Ações desse tipo, tomadas em um momento de escassez extrema, colocam em risco o abastecimento humano de milhares de pessoas em toda a região.
Mesmo com a barragem em nível crítico, a prática de liberar grandes volumes de água para propriedades agrícolas continua, essa operação favorece poucos e penaliza a coletividade. A água, lançada de forma arcaica e sem controle, escoa pelo leito do rio Paramirim, se perdendo por infiltração e evaporação antes mesmo de alcançar o município de Caturama, a apenas 16 quilômetros rio abaixo. No caminho, potentes motores de irrigação e de criadores de gado sugam o recurso que deveria servir prioritariamente para o consumo humano. O resultado é previsível, torneiras secas, reservatórios municipais a beira de colapso e um sentimento crescente de revolta entre os moradores.
Até pouco tempo, o Zabumbão era responsável por abastecer apenas quatro cidades, Paramirim, Caturama, Botuporã e Tanque Novo. Com a ampliação do Sistema Integrado de Abastecimento de Água (SIAA), a adutora passou a atender também Rio do Pires, Ibipitanga e Macaúbas. E dentro em breve, o sistema contemplará ainda Boquira e Oliveira dos Brejinhos, cujas tubulações já estão finalizadas. Isso significa que nove municípios dependerão diretamente de um mesmo reservatório, hoje com pouco mais de um terço de sua capacidade útil, um cenário de alto risco, sem precedentes.
A tão aguardada Barragem do Rio da Caixa, localizada no município de Rio do Pires, que servirá de reforço essencial ao sistema Zabumbão, ainda está em fase inicial de construção. A promessa do governo era concluir a obra o mais breve possível, mas, ao que tudo indica, ainda levará anos para que o reservatório esteja concluído, com bom nível de armazenamento e interligado ao complexo sistema do Zabumbão. Enquanto isso, toda a responsabilidade de abastecimento regional recai sobre um único manancial, que já dá claros sinais de esgotamento.
O problema, porém, não se resume apenas à seca ou ao uso indevido da água. O Zabumbão também sofre com um processo contínuo de assoreamento e contaminação. O volume morto da barragem tem aumentado significativamente, não apenas por fenômenos naturais de sedimentação, mas também pela decantação de dejetos humanos, pela poluição oriunda de garimpos e pelo escoamento de esgotos lançados há décadas pelo município de Érico Cardoso, de onde nascem os rios que alimentam o reservatório. Esses resíduos, acumulados ao longo do tempo, reduzem a profundidade útil da barragem, comprometem a qualidade da água e aceleram o avanço do volume inservível para o consumo humano.
As previsões para novembro indicam apenas pancadas isoladas, insuficientes para recompor o nível da barragem. Mesmo que chova, a evaporação elevada e as perdas ao longo do rio reduzem drasticamente o aproveitamento da água. A situação é crítica e cada metro cúbico desperdiçado representa dias a menos de segurança hídrica para toda a população do Vale.
É urgente rever prioridades, em tempos de seca, o uso da água para irrigação de fazendas e pastagens precisa ceder lugar ao direito básico de acesso à água potável. Cada descarga feita agora pode significar o desabastecimento de milhares de famílias nos próximos meses. A população do Vale, de Paramirim a Oliveira dos Brejinhos, vive hoje um momento de apreensão e clama por responsabilidade e consciência.
O Zabumbão pede socorro e talvez seja a hora de intervenções austeras do Ministério Público do Meio Ambiente, posicionamentos firmes e decisões acertadas, antes que o silêncio da seca se torne definitivo.
