Gestos de alinhamento, disputas internas e risco de rearranjos expõem tensões no campo liderado pelo PT. Crescem preocupações de prefeitos e lideranças do interior com a iminente saída de Coronel e o que isso pode provocar
As movimentações recentes no núcleo do poder estadual voltaram a acender o debate sobre a formação da chapa governista da Bahia para as eleições que acontecem daqui a nove meses. Uma publicação do governador Jerônimo Rodrigues ao lado do ministro da Casa Civil, Rui Costa, e do senador Jaques Wagner, todos do PT, foi suficiente para reacender especulações sobre o desenho político que está sendo gestado nos bastidores, especialmente em relação às duas vagas ao Senado Federal.
Divulgada nas redes sociais, a imagem foi acompanhada de uma legenda que enfatiza parceria, confiança e alinhamento político entre as principais lideranças petistas do estado. Embora o gesto tenha sido apresentado como um encontro institucional e natural, sua leitura no meio político extrapola o simbolismo público e alcança o terreno das articulações eleitorais. A ausência do senador Ângelo Coronel, do PSD, aliado histórico do grupo, chamou atenção e reforçou rumores sobre um possível reposicionamento do pessedista no cenário das eleições deste ano.
O pano de fundo dessa movimentação é a disputa interna por espaço na chapa majoritária. Jaques Wagner já confirmou a intenção de concorrer à reeleição ao Senado, enquanto Rui Costa, nome forte do PT e figura central no governo federal, também aparece como potencial candidato à segunda vaga. Caso esse desenho se confirme, restaria pouco ou nenhum espaço para Ângelo Coronel, que também busca a reeleição e já deixou claro, publicamente, seu descontentamento com a condução das negociações.
Em entrevistas concedidas no início de dezembro, Coronel afirmou que não descarta deixar o grupo político liderado pelo PT na Bahia caso não seja contemplado na chapa majoritária. A declaração, feita em tom direto, foi interpretada como um recado claro ao núcleo governista e expôs fissuras até então tratadas de forma mais discreta. O senador tem ressaltado que pertence ao PSD e que, como tal, espera reconhecimento e participação efetiva nas decisões estratégicas do campo aliado.
Do lado do PT, o discurso oficial busca minimizar a ideia de ruptura. Lideranças do partido defendem que o debate sobre a chapa ainda está em curso e que a prioridade é construir uma composição considerada competitiva, capaz de fortalecer a candidatura à reeleição de Jerônimo Rodrigues e manter a hegemonia do grupo no estado. Internamente, também pesa a avaliação de que a eleição de outubro terá forte impacto nacional, o que reforça a estratégia de alinhar nomes com maior densidade eleitoral e projeção política.
Ainda assim, o desconforto do PSD não passa despercebido. O partido tem papel relevante na sustentação da base governista na Bahia e sua eventual saída ou distanciamento poderia alterar significativamente o equilíbrio político do estado. Nos bastidores, cresce a percepção de que o prolongamento das indefinições pode ampliar tensões e abrir espaço para rearranjos, inclusive com a oposição, que observa atentamente os movimentos do campo governista.
O cenário, portanto, é de cautela e cálculo. Gestos públicos de unidade convivem com negociações reservadas, disputas por protagonismo e alertas sobre os riscos de fragmentação. A definição da chapa majoritária para 2026 ainda está distante, mas os sinais emitidos até agora indicam que o processo será marcado por intensas tratativas políticas, nas quais a capacidade de conciliação do grupo liderado pelo PT será colocada à prova.
Mais do que a escolha de nomes, o debate em curso revela um teste de força e coesão da base governista baiana. A forma como essas tensões serão administradas nos próximos meses pode definir não apenas a configuração da chapa, mas também o grau de unidade com que o grupo chegará ao próximo ciclo eleitoral.
