Ao desafiar leis internacionais, submeter países e tratar riquezas alheias como propriedade pessoal, o presidente dos EUA expõe um novo imperialismo, diante da passividade global e do silêncio constrangedor da América Latina

O anúncio feito por Donald Trump de que a Venezuela “entregará” entre 30 e 50 milhões de barris de petróleo aos Estados Unidos marca um dos episódios mais graves e simbólicos da política internacional recente. Não se trata apenas de energia, comércio ou sanções. Trata-se da consolidação de uma postura imperial explícita, na qual um presidente se comporta como senhor absoluto de recursos que pertencem a uma nação soberana, decidindo sozinho seu destino e, ainda mais grave, afirmando que o dinheiro obtido ficará sob seu controle.

Ao divulgar a medida em sua própria rede social, Trump deixou claro que não reconhece limites institucionais, tribunais internacionais ou acordos multilaterais. Age como quem não precisa prestar contas a ninguém. O petróleo venezuelano, sob sanções e em meio a negociações envolvendo empresas norte-americanas, passa a ser tratado como espólio de guerra, ainda que não haja guerra declarada. A justificativa oficial, de que os recursos seriam usados “em benefício do povo da Venezuela e dos EUA”, soa como um eco antigo e conhecido na história latino-americana, o discurso civilizatório usado para legitimar a apropriação de riquezas.

Não há ingenuidade possível. O caso venezuelano não é sobre combate ao tráfico, defesa da democracia ou ajuda humanitária. É sobre o controle do ouro negro, o petróleo, ativo estratégico em um mundo em disputa energética permanente. Ao determinar que o óleo seja levado a portos norte-americanos, vendido a preço de mercado e administrado sob comando de Washington, Trump expõe a lógica nua e crua do poder, quem pode mais, manda mais.

O que mais assusta, porém, não é apenas a ousadia do presidente norte-americano, mas a reação do restante do mundo. Com exceção da China, que reagiu de forma mais firme, o que se ouve são declarações tímidas, protocolares, quase constrangidas. Presidentes e chancelarias parecem aceitar, com resignação, que as regras internacionais só valem para alguns. A América Latina, historicamente alvo desse tipo de intervenção, mais uma vez observa em silêncio, como se o episódio não fosse um alerta direto a toda a região.

Trump, bilionário, dono de uma rede social própria e sustentado por uma base política que naturaliza o confronto com instituições, age como se fosse o imperador de um mundo sem freios. Taxa países conforme sua conveniência, ignora decisões judiciais, afronta organismos internacionais e agora avança sobre territórios e recursos estratégicos com uma naturalidade perturbadora. A mensagem é clara, não haverá consequências reais para quem concentra poder suficiente.

Para o Nordeste brasileiro, região que conhece na pele os efeitos históricos do colonialismo, da exploração econômica e da desigualdade global, o episódio não é distante nem abstrato. Ele revela como, em um sistema internacional enfraquecido, países ricos em recursos, mas politicamente vulneráveis, seguem expostos à vontade das grandes potências. Hoje é a Venezuela. Amanhã, qualquer outro que atravesse interesses estratégicos.

O mundo assiste a Trump redesenhar a geopolítica como se fosse um tabuleiro pessoal. E, enquanto a maioria se limita a notas diplomáticas e discursos cautelosos, avança a normalização de um novo imperialismo, agora escancarado, sem verniz e sem vergonha. A pergunta que fica não é até onde Trump irá, mas até quando os demais aceitarão.