Gestores defendem diálogo com órgãos de controle para criar critérios e evitar inviabilidade das festas juninas e de outros eventos tradicionais nos municípios
A escalada nos valores cobrados por artistas e produtoras para apresentações durante o período junino na Bahia tem acendido um sinal de alerta entre prefeitos de diversas regiões do estado. Diante do aumento considerado desproporcional e distante da realidade fiscal dos municípios, gestores municipais defendem a abertura de um diálogo institucional com órgãos de controle, como o Ministério Público e os Tribunais de Contas, para a definição de critérios e parâmetros que orientem as contratações artísticas, garantindo transparência, equilíbrio fiscal e a continuidade das festas tradicionais.
A preocupação foi incorporada à agenda prioritária da União dos Municípios da Bahia (UPB), que avalia que, mantido o atual ritmo de crescimento dos cachês e dos custos operacionais, o São João corre o risco de se tornar inviável em curto prazo, especialmente para municípios de pequeno e médio porte. Além dos valores pagos aos artistas, pesam sobre as prefeituras despesas crescentes com estrutura, sonorização, iluminação, segurança e logística, pressionadas pela inflação e por exigências técnicas cada vez maiores.
O presidente da UPB tem defendido a construção de um entendimento com os órgãos de fiscalização para alinhar práticas e reduzir distorções. Segundo ele, não é razoável que um mesmo artista cobre valores significativamente diferentes de cidades vizinhas, criando uma espécie de “leilão” que penaliza os cofres públicos e expõe gestores a riscos administrativos. A criação de parâmetros de referência ou mesmo de algum tipo de tabelamento pode trazer mais segurança jurídica e previsibilidade às administrações municipais.
O prefeito de Jequié, Zé Cocá, que administra um dos São Joãos mais tradicionais do interior baiano, também demonstrou preocupação com o cenário. Ele avalia que, se os custos continuarem crescendo no mesmo ritmo, muitos municípios não terão condições de manter suas festas nos próximos anos sem comprometer áreas essenciais da gestão pública. O alerta é de que recursos que antes permitiam a realização de um evento de porte médio hoje já não cobrem sequer itens básicos de produção.
Em apuração realizada pelo Jornal O Eco, prefeitos da Bacia do Paramirim, do Sertão Produtivo e da Chapada Diamantina foram ouvidos e reforçaram apoio à iniciativa defendida pela UPB. De forma unânime, os gestores afirmaram que os aumentos súbitos nos cachês não condizem com a realidade econômica dos municípios nem com sua capacidade financeira, sobretudo diante das obrigações administrativas permanentes, como saúde, educação, infraestrutura e assistência social. Para eles, sem critérios claros e pactuados, a disputa por atrações pode comprometer não apenas o São João, mas também outros eventos públicos tradicionais que fazem parte do calendário cultural e econômico do interior baiano.
Os prefeitos destacam ainda que a discussão não representa um embate com artistas ou produtoras, mas uma tentativa de preservar a sustentabilidade das festas e o interesse público. A defesa é por um modelo mais racional de contratação, que leve em conta o porte do município, sua arrecadação, os custos logísticos e a proporcionalidade do investimento, evitando excessos que inviabilizem financeiramente as administrações locais.
Nos bastidores, cresce também a avaliação de que o momento pode servir para fortalecer o São João mais autêntico, valorizando artistas regionais, sanfoneiros e o forró tradicional, preservando a identidade cultural das cidades e reduzindo a dependência de grandes cachês. A expectativa é que, a partir do diálogo com os órgãos de controle, sejam construídas soluções que assegurem transparência, responsabilidade fiscal e a manutenção de uma das mais importantes manifestações culturais da Bahia e do Nordeste.
