Movimento denuncia esquecimento da tradição e a troca por atrações sem identidade com Santo Antônio, São João e São Pedro
O movimento dos forrozeiros da Bahia ganha força ao afirmar que as festas juninas pertencem por direito a quem construiu sua identidade ao longo de gerações. Para os artistas do estado, o calendário que celebra Santo Antônio, São João e São Pedro não pode continuar tratando o forró como atração secundária de um evento que nasceu justamente embalado por sanfona, zabumba e triângulo. Eles defendem que pelo menos metade da programação dos municípios seja ocupada por talentos baianos, garantindo espaço digno para quem mantém viva a tradição que dá sentido aos arraiais.
A mobilização ocorre em um cenário no qual gestores municipais demonstram cansaço diante dos altos cachês cobrados por bandas e artistas nacionais. Muitos municípios já não suportam a pressão financeira e percebem que a dependência de atrações de fora compromete orçamentos que deveriam atender áreas essenciais. Os forrozeiros observam esse movimento e reforçam que a solução passa pelo reconhecimento dos profissionais locais, que durante o ano inteiro preservam a cultura, mas na época mais importante são empurrados para horários menos nobres ou transformados em coadjuvantes da própria festa.
O debate não se resume à disputa por palco, mas à sobrevivência de uma cadeia cultural que envolve compositores, músicos, técnicos de som, costureiras, artesãos e tantos outros trabalhadores ligados ao ciclo junino. A burocracia para contratação dos pequenos artistas, com exigências difíceis de cumprir para quem vive de apresentações esporádicas, também tem sido apontada como barreira injusta. Enquanto grandes escritórios transitam com facilidade pelos trâmites legais, os grupos tradicionais encontram portas fechadas justamente no período em que poderiam garantir o sustento do ano.
Para os defensores da causa, assegurar um percentual mínimo de atrações baianas significa devolver às festas juninas sua alma original. O forró raiz, com suas histórias de amor, fé e vida no sertão, não pode continuar ofuscado por modismos que pouco dialogam com a memória do povo. As comemorações de Santo Antônio, São João e São Pedro sempre foram espaço de encontro das comunidades, de reafirmação de identidade e de partilha cultural, e não apenas vitrines para espetáculos distantes da realidade nordestina.
Os artistas afirmam que a valorização do forró não exclui outros ritmos, mas estabelece equilíbrio e respeito à origem da festa. Querem ser reconhecidos como protagonistas naturais de um evento que ajudaram a construir e que movimenta a economia de centenas de cidades baianas. A luta é por dignidade, por trabalho e pelo direito de cantar em casa sem ocupar o papel de figurante.
O diálogo com as instituições segue aberto na busca de caminhos legais que simplifiquem contratações e assegurem justiça cultural. Os forrozeiros acreditam que o futuro das festas juninas depende dessa mudança de olhar, capaz de compreender que sem forró não existe Santo Antônio animado, não existe São João verdadeiro nem São Pedro com identidade. O que está em jogo é a preservação de uma herança que atravessa gerações e que precisa continuar ecoando nos terreiros e praças da Bahia com a voz de quem sempre a representou.
