Após visita na semana passada, articulações expuseram tensões, recusas e fissuras que já projetavam impacto na disputa pelo Senado
A passagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pela Bahia na semana passada não se limitou a compromissos oficiais e acabou se consolidando como um movimento político decisivo para conter uma crise que ameaçava desorganizar a base governista no estado. Nos bastidores, o que se confirmou foi uma intervenção direta para evitar a implosão da chapa que sustentaria o projeto de continuidade liderado pelo governador Jerônimo Rodrigues.
O ponto central da tensão girava em torno do nome de Geraldo Júnior como pré-candidato a vice. A resistência mais contundente partiu do ex-governador e ministro da Casa Civil Rui Costa, que chegou a cogitar recuar da disputa ao Senado diante da imposição articulada pelo senador Jaques Wagner. O desgaste não era apenas político, mas também pessoal, agravado por episódios que já haviam exposto divergências públicas e críticas veladas.
Foi nesse cenário que Lula atuou como fiador da unidade. Mesmo sem entusiasmo pelo nome de Geraldo Júnior, o presidente optou por uma solução pragmática e convenceu Rui Costa de que a margem de manobra era limitada. O argumento apresentado foi direto e simbólico ao mesmo tempo, quase quinze nomes haviam sido sondados para a vaga de vice e recusaram o convite, evidenciando a dificuldade do grupo em construir consensos fora de seu núcleo mais fiel.
Entre os nomes mais emblemáticos esteve o da empresária Isabela Suarez, vista como uma escolha estratégica que poderia ampliar o alcance eleitoral da chapa. Com perfil moderno, trânsito no setor produtivo e apelo em segmentos diversos, ela representava uma tentativa de oxigenar a composição. Ainda assim, optou por permanecer fora da política institucional naquele momento, priorizando sua atuação no empresariado. A decisão teve impacto indireto também na oposição, especialmente no campo liderado por ACM Neto, que via nela um potencial fator de desequilíbrio eleitoral.
Outro nome que apareceu nas articulações, ainda que em contexto distinto, foi o do prefeito de Salvador Bruno Reis. Sondado para compor uma estratégia nacional ao lado de Flávio Bolsonaro, ele também recusou, optando por preservar alianças locais e evitar ruídos que pudessem comprometer seu grupo político. A recusa reforçou um padrão observado em todo o processo, lideranças com capital político consolidado demonstraram cautela diante de convites que poderiam implicar riscos eleitorais ou desgaste de imagem.
No campo governista, até nomes considerados naturais, como o da presidente da Assembleia Legislativa, Ivana Bastos, ficaram pelo caminho, seja por ausência formal de convite ou por cálculo político que privilegiou a estabilidade de mandatos já assegurados.
O desfecho, com a manutenção de Geraldo Júnior, revelou mais do que uma escolha, expôs as limitações de articulação e a dependência de lideranças centrais para garantir coesão. A intervenção de Lula evitou uma ruptura imediata, mas não eliminou os sinais de desgaste interno. Ao contrário, evidenciou que o projeto hegemônico do grupo enfrentava desafios que iam além da montagem da chapa majoritária.
O cenário tornou-se ainda mais delicado quando se observou o ambiente em torno da disputa ao Senado. Os candidatos, antes aliados naturais dentro do mesmo campo político, já demonstravam dificuldades de convivência e alinhamento, criando um clima de desconfiança que poderá contaminar a campanha como um todo. Em eleições majoritárias, onde a narrativa de unidade costuma ser decisiva, fissuras internas tendem a ser amplificadas pelo adversário e percebidas pelo eleitor.
A articulação que garantiu a manutenção da chapa resolveu um impasse imediato, mas deixou marcas evidentes. O desafio passou a ser não apenas sustentar a composição, mas reconstruir pontes entre lideranças que, embora no mesmo palanque, já não caminham com a mesma sintonia. Até que ponto essas tensões podem interferir no desempenho eleitoral permanece como uma incógnita, mas o histórico político já indica que, quando a unidade é forçada e não construída, o custo costuma aparecer nas urnas.
