Mais uma jovem assassinada, mais uma família destruída, mais uma criança condenada a crescer sem a mãe e uma pergunta que insiste em ecoar na Bahia inteira, quantas mulheres ainda precisarão morrer para que a violência anunciada seja interrompida antes do feminicídio?
A morte de Yasmim da Silva Santos, de apenas 25 anos, encontrada sem vida às margens da BA-262, em Vitória da Conquista, reacende uma ferida aberta e cada vez mais profunda. Segundo informações da investigação, a jovem teria sido retirada à força da casa de um parente pelo ex-companheiro, apontado como principal suspeito. Horas depois, seu corpo foi encontrado com marcas de tiros. Yasmim deixa um filho de seis anos e uma história interrompida pela violência que tantas vezes dá sinais antes do desfecho fatal.
O caso provoca indignação por um detalhe que pesa sobre toda a sociedade. Se a jovem foi levada contra a própria vontade, onde falharam os mecanismos de proteção? O medo paralisou testemunhas? Houve omissão? Faltaram condições para impedir a ação? São perguntas dolorosas, mas necessárias diante de uma realidade em que mulheres seguem sendo arrancadas da vida diante de alertas ignorados.
O roteiro parece repetir-se com crueldade assustadora. Dias antes, em Salvador, a mecânica Iana Silva Santos, também de 25 anos, foi assassinada dentro de casa. Ela possuía medida protetiva contra o ex-companheiro, condenado anteriormente por agressão, preso e posteriormente colocado em liberdade. O suspeito teria invadido a residência e cometido o crime a facadas. Nem o histórico de violência, nem a medida judicial foram suficientes para evitar o pior.
Os dois casos carregam semelhanças perturbadoras. Mulheres jovens. Ex-companheiros apontados como autores. Histórico anterior de violência ou sinais evidentes de risco. O resultado é sempre o mesmo. A morte chega antes da proteção efetiva.
Na Bahia, o cenário permanece alarmante. Dados oficiais mostram que, entre 2017 e 2025, o estado registrou 891 feminicídios. Em média, uma mulher foi assassinada por violência de gênero a cada quatro dias. Em nove de cada dez casos, os autores eram companheiros ou ex-companheiros das vítimas.
Mesmo quando há redução pontual em números absolutos, o padrão permanece brutal. A maioria dos crimes ocorre dentro do ambiente doméstico e o agressor quase sempre faz parte do círculo íntimo da vítima. Em todo o Brasil, o feminicídio segue crescendo. Foram 1.568 mulheres assassinadas em 2025, o maior número desde a tipificação do crime, com 8 em cada 10 casos praticados por parceiros ou ex-companheiros.
A sociedade precisa enfrentar uma verdade desconfortável. O feminicídio raramente acontece sem avisos. Antes da morte surgem ameaças, perseguições, agressões, controle, humilhações e pedidos de ajuda. O assassinato costuma ser apenas o último capítulo de uma violência prolongada. Quando uma mulher é levada à força e ninguém consegue impedir, quando medidas protetivas não garantem segurança, quando agressores reincidentes retornam ao convívio social sem acompanhamento eficaz, o debate deixa de ser apenas sobre criminalidade. Passa a ser sobre falhas estruturais de proteção.
Yasmim e Iana agora se transformam em estatísticas. Mas tinham nomes, sonhos, filhos, trabalho e futuro. O desafio urgente é impedir que outras mulheres tenham suas histórias encerradas da mesma forma. Porque nenhuma medida protetiva pode virar apenas papel. Nenhum pedido de ajuda deveria terminar em velório. E nenhuma sociedade pode se acostumar a assistir mulheres morrerem depois de terem avisado que corriam perigo.
