Sanfoneiros e forrozeiros de várias gerações alertam para a perda de espaço do forró tradicional e defendem a preservação da alma musical que deu origem aos festejos de Santo Antônio, São João e São Pedro

Quando junho chega ao sertão, não é apenas uma mudança no calendário. É como se a própria alma nordestina despertasse ao som das primeiras sanfonas, ao estalar da lenha nas fogueiras e ao colorido das bandeirolas balançando sob o céu estrelado. Durante séculos, Santo Antônio, São João e São Pedro transformaram ruas, praças e comunidades em grandes celebrações da fé, da cultura popular e da identidade sertaneja. No centro dessa história sempre esteve a sanfona, instrumento que aprendeu a falar a linguagem do povo e se tornou símbolo maior dos festejos juninos.

Nos últimos anos, porém, uma discussão tem ocupado espaço crescente entre músicos, produtores culturais e admiradores da tradição nordestina. Muitos questionam o avanço de estilos musicais sem ligação direta com a cultura junina nas grades de programação dos arraiais espalhados pelo Nordeste. A polêmica atravessa gerações e encontra eco especialmente entre sanfoneiros profissionais, que frequentemente relatam a sensação de assistir de longe a uma festa que ajudaram a construir.

A preocupação não está ligada à rejeição da diversidade musical. O que muitos artistas defendem é que o período junino preserve sua essência cultural. Para eles, o São João não pode perder a trilha sonora que o acompanhou desde os tempos em que as festas aconteciam nos terreiros das fazendas, iluminadas apenas pelo fogo das fogueiras e embaladas por zabumba, triângulo e sanfona.

O debate ganhou ainda mais força diante das manifestações públicas de importantes nomes do forró. O cantor e compositor Dorgival Dantas, uma das maiores referências da música nordestina contemporânea, já chamou atenção para a ausência de muitos sanfoneiros, zabumbeiros e cantadores nas grandes festas juninas. Em apresentações públicas, o artista defendeu maior abertura para os músicos regionais e lembrou que inúmeros forrozeiros passam o período junino assistindo pela televisão aquilo que deveria ser seu principal espaço de trabalho. Para ele, valorizar a música nordestina é também uma responsabilidade cultural de toda a região.

A mesma preocupação é compartilhada por artistas que construíram suas carreiras defendendo o forró de raiz. Edigar Mão Branca, uma das vozes mais autênticas da música sertaneja nordestina, tornou-se ao longo das décadas um símbolo da resistência cultural do interior baiano. Sua trajetória sempre esteve associada à preservação das tradições populares e à defesa do forró como patrimônio vivo das comunidades sertanejas.

Entre os sanfoneiros da nova geração, o sentimento também se repete. Dio do Acordeon, que vem ganhando espaço nos grandes festejos juninos, costuma destacar a força emocional da sanfona e sua capacidade de conectar passado e presente. Em um período em que o mercado musical se transforma rapidamente, artistas como ele representam uma geração que busca modernizar a linguagem do forró sem abrir mão de suas raízes.

O que está em jogo, segundo muitos defensores da cultura nordestina, não é apenas a contratação de artistas. Trata-se da preservação de um patrimônio imaterial reconhecido nacionalmente e construído ao longo de décadas por mestres como Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Flávio José, Santana, Jorge de Altinho e tantos outros que fizeram da sanfona uma extensão da própria identidade nordestina. O forró nasceu da união da sanfona, da zabumba e do triângulo, elementos que moldaram uma das manifestações culturais mais importantes do Brasil.

Ao mesmo tempo, surgem sinais de esperança. Projetos recentes liderados por artistas tradicionais e por novos talentos têm recolocado a sanfona em evidência nacional. Festivais dedicados ao instrumento, encontros de sanfoneiros e produções musicais que aproximam jovens públicos do forró demonstram que existe uma forte demanda pela valorização das raízes nordestinas. A própria ascensão de trabalhos que unem tradição e contemporaneidade revela que a sanfona continua viva e capaz de emocionar novas gerações.

Talvez a grande reflexão deste tempo seja compreender que o São João representa muito mais do que uma sequência de shows. Ele é memória coletiva, herança familiar e expressão da alma sertaneja. Cada acorde de sanfona carrega histórias de avós, de agricultores, de romeiros, de casamentos na roça e de noites iluminadas pela fogueira. Quando esse som perde espaço, não é apenas um instrumento que silencia. É uma parte da própria identidade nordestina que corre o risco de ficar distante dos palcos.

E enquanto as bandeirolas voltam a colorir os céus de junho, cresce entre sanfoneiros, forrozeiros e admiradores da cultura popular um apelo simples, mas carregado de significado. Que a modernidade tenha seu lugar, mas que jamais se esqueça de reverenciar a música que fez o coração do sertão aprender a dançar.