Denúncias no Vale do Jiquiriçá expõem conflitos da mineração, enquanto registros oficiais apontam potencial no sudoeste, no Sertão Produtivo e no Vale do Paramirim
A disputa internacional por minerais estratégicos encontra na Bahia um terreno promissor e um desafio que vai além da geologia. Enquanto empresas buscam matérias primas para equipamentos eletrônicos, baterias e aplicações militares, comunidades rurais cobram informações sobre o futuro de suas casas, suas lavouras e suas fontes de água. A corrida pelas chamadas terras raras coloca em discussão quem participará dos ganhos e quem responderá pelos impactos dessa nova fronteira mineral.
No Vale do Jiquiriçá, o projeto Monte Alto tornou esse conflito visível. Reportagem do Intercept Brasil, reúne denúncias de moradores sobre pressão para vender propriedades à Borborema Recursos Estratégicos, subsidiária da australiana Brazilian Rare Earths. A companhia tem entre seus investidores a Hancock Prospecting, da bilionária Gina Rinehart, apoiadora de Donald Trump. Segundo os relatos, 17 das aproximadamente 120 famílias haviam vendido seus imóveis. A Borborema afirmou que não admite constrangimento e que as negociações seguem avaliações técnicas.
A dimensão ambiental amplia as preocupações. O levantamento do Intercept identificou sobreposição de processos minerários com a APA Caminhos Ecológicos da Boa Esperança e com a Estação Ecológica de Wenceslau Guimarães. A existência desses registros não equivale a autorização para explorar as áreas. A empresa também declarou que Monte Alto não produzirá concentrado de urânio nem realizará enriquecimento no local. A eventual recuperação do material em Camaçari depende de estudos, licenciamento e autorizações específicas.
Os próprios comunicados empresariais ajudam a dimensionar o empreendimento. Em setembro, a BRE anunciou o início das operações da primeira etapa de sua planta piloto em Camaçari e apresentou planos para uma segunda fase, voltada à extração e separação química. Entre os produtos previstos estão óxidos de terras raras e concentrado de urânio, conhecido como yellowcake. A companhia também informou manter acordo de fornecimento de terras raras pesadas com a francesa Carester. Trata-se, portanto, de uma cadeia industrial em desenvolvimento, com etapas ainda sujeitas a estudos e exigências regulatórias. Produzir concentrado de urânio não significa realizar enriquecimento nuclear.
O interesse mineral, porém, ultrapassa o Vale do Jiquiriçá. No sudoeste e no Sertão Produtivo, existem fundamentos técnicos para investigar terras raras. Estudo publicado em 2025 pelo Serviço Geológico do Brasil identifica no Complexo Lagoa Real potencial associado às mineralizações de urânio, inclusive para eventual aproveitamento como subproduto. O documento também registra minerais portadores desses elementos no Complexo Jequié. Essas referências confirmam ambientes geológicos favoráveis, que podem transformar automaticamente cada ocorrência em uma jazida economicamente aproveitável.
No Sertão Produtivo, há um registro concreto e recente do avanço das pesquisas. O Alvará nº 2.149, de 30 de março de 2026, publicado em 2 de abril, autorizou Francisco de Assis Honorio a pesquisar ouro e terras raras em uma área de 452,52 hectares nos municípios de Lagoa Real e Ibiassucê. O prazo concedido foi de três anos. O ato ressalta que o título não dispensa as licenças e demais permissões ambientais exigidas. É uma autorização para investigar o subsolo, sem comprovar, por si só, reservas ou viabilidade de exploração comercial.
Na Bacia do Paramirim, as informações também precisam ser apresentadas com precisão. Em 2021, a Secretaria de Desenvolvimento Econômico da Bahia incluiu terras raras entre os bens minerais da Província Mineral do Vale do Paramirim, durante apresentação do potencial regional a prefeitos. Essa província, entretanto, é um recorte geológico e econômico mais amplo que o território de identidade Bacia do Paramirim. A referência oficial sustenta o interesse exploratório regional.
Há, assim, elementos para incluir essas regiões no debate baiano sobre terras raras. Existe a presença de elementos químicos, ocorrência mineral, autorização de pesquisa e reserva economicamente viável, os quais representam situações diferentes.
Para a Bahia, transformar potencial mineral em desenvolvimento basta atrair investidores, aprofundar estudos acessíveis à população, fiscalização independente, zelando pela proteção das águas, negociações transparentes e benefícios que permaneçam nos municípios. A disputa pelo subsolo ganha legitimidade quando reconhece as pessoas que vivem na superfície. Antes de qualquer promessa de prosperidade, são essas comunidades que precisam conhecer, com clareza, o tamanho das oportunidades e das responsabilidades colocadas sobre seu território.
