Com a polarização consolidada, a corrida pelo Palácio de Ondina ganha novos contornos na reta final das convenções partidárias, enquanto governo e oposição apostam em estratégias semelhantes para conquistar um eleitorado cada vez mais independente e exigente

A sucessão estadual na Bahia já domina o debate político e ao que tudo indica, deverá protagonizar uma das eleições mais disputadas das últimas décadas. À medida que se aproximam as datas das convenções partidárias, quando serão oficializadas as candidaturas e definidas as alianças para a campanha, o cenário se consolida em torno de dois protagonistas. De um lado, o governador Jerônimo Rodrigues, que busca a renovação do mandato sustentado pelo grupo político que governa a Bahia há cerca de vinte anos. Do outro, o ex-prefeito de Salvador ACM Neto, que tenta conduzir a oposição de volta ao comando do Estado. Enquanto isso, Ronaldo Mansur permanece distante desse embate principal, sem demonstrar, até o momento, potencial de crescimento capaz de romper a polarização entre governo e oposição.

As movimentações da pré-campanha evidenciam que os dois grupos chegaram à mesma conclusão. A eleição será decidida muito além da propaganda eleitoral. O governo percorre o estado com o Programa de Governo Participativo, o PGP, apresentado como um instrumento de escuta popular para a elaboração de propostas. A oposição respondeu lançando o projeto Sua Voz é a Nossa Voz, igualmente baseado em encontros regionais e no diálogo direto com a população.

A partir daí, teve início uma intensa disputa de narrativas. Integrantes da oposição passaram a criticar o PGP, alegando que alguns encontros estariam sendo fortalecidos pela mobilização de servidores contratados para ampliar o público presente. Em resposta, aliados do governador passaram a afirmar que ACM Neto estaria apenas reproduzindo uma metodologia de participação popular já utilizada pelo governo.

Independentemente de quem reivindique a autoria da estratégia, o fato é que ambos perceberam uma mudança importante no comportamento do eleitor baiano. O cidadão já não se contenta apenas com grandes comícios ou discursos de palanque. Quer ser ouvido, participar da construção das propostas e cobrar compromissos concretos para problemas históricos que ainda desafiam o desenvolvimento da Bahia.

O mapa político também revela uma disputa de características bastante distintas. Jerônimo Rodrigues preserva uma ampla base de prefeitos, especialmente em municípios de pequeno e médio porte, consolidando uma estrutura municipalista que historicamente exerce grande influência nas campanhas eleitorais. ACM Neto, por sua vez, que já concentra apoios expressivos nos maiores centros urbanos, busca penetrar muito mais no interior, posição que o aproxima dos diversos recantos no estado, apostando em minar redutos do PT, mantendo a força política da oposição nas cidades mais populosas para desequilibrar essa vantagem institucional do governo. São duas estratégias diferentes, mas igualmente relevantes, que deverão ser testadas nas urnas.

As pesquisas divulgadas até aqui confirmam que a eleição permanece concentrada entre Jerônimo Rodrigues e ACM Neto. Embora os levantamentos apresentem diferenças metodológicas e resultados distintos, o quadro geral aponta para uma disputa polarizada, com vantagem considerável para a oposição, sem espaço significativo para uma terceira candidatura alterar o cenário eleitoral. Em se mantendo o quadro, a disputa caminha para ser decidida já no 1º turno.

Nos bastidores, porém, um fenômeno passou a despertar a atenção dos estrategistas das duas campanhas. Dirigentes partidários admitem que levantamentos internos vêm indicando um crescimento do chamado voto cruzado, situação em que o eleitor manifesta intenção de votar em Luiz Inácio Lula da Silva para a Presidência da República e, ao mesmo tempo, declara preferência por ACM Neto para o Governo da Bahia. Essas pesquisas internas não foram divulgadas publicamente e, portanto, não podem ser verificadas de forma independente. Ainda assim, o tema passou a integrar as análises políticas e a orientar decisões estratégicas dos dois principais grupos.

Se essa tendência vier a se confirmar nas urnas, poderá representar uma mudança importante no comportamento do eleitorado baiano. A liderança nacional de Lula continua sendo um dos maiores ativos políticos do grupo governista. Entretanto, cresce entre analistas a percepção de que uma parcela do eleitorado passou a separar sua avaliação do governo federal da avaliação da administração estadual. Em outras palavras, já não há consenso de que o voto em Lula represente automaticamente um voto em Jerônimo Rodrigues.

Esse debate ganhou ainda mais força após os desdobramentos da Operação Compliance Zero, que atingiu politicamente o senador Jaques Wagner, uma das principais lideranças do Partido dos Trabalhadores na Bahia. Embora o senador negue irregularidades e as investigações ainda estejam em andamento, sem condenação judicial, a oposição utiliza o episódio para sustentar a tese de desgaste do grupo político que governa o Estado há aproximadamente duas décadas. O governo, por sua vez, rebate afirmando que não houve responsabilização judicial, defende o respeito ao devido processo legal e aposta na força política do presidente Lula.

Também deverá pesar na decisão do eleitor a comparação entre promessas e realizações. A oposição afirma que importantes obras estruturantes anunciadas ao longo dos últimos anos permanecem inacabadas ou caminham abaixo das expectativas da população. O governo responde destacando investimentos em infraestrutura, saúde, educação, segurança pública e mobilidade, argumentando que muitos projetos possuem cronograma de longo prazo e dependem justamente da continuidade administrativa para serem concluídos. Existem inclusive, muitas obras iniciadas recentemente, que ainda dependem de muitos repasses para serem finalizadas.

À medida que se aproximam o encerramento das convenções partidárias e o início oficial da campanha, aumenta também o debate sobre a possibilidade de definição da eleição ainda no primeiro turno. A resposta dependerá da capacidade de um dos candidatos ampliar sua vantagem durante a campanha oficial e conquistar parte significativa dos eleitores que ainda observam atentamente o desenrolar da disputa. Não será surpresa caso a definição ocorra já no dia 4 de outubro.

Independentemente do resultado, uma constatação parece inevitável. A Bahia vive uma eleição de enorme significado político. De um lado está um grupo que busca renovar um projeto iniciado há cerca de vinte anos, apoiado na força institucional, na ampla base municipalista e na liderança nacional do presidente Lula. Do outro está uma oposição que aposta no sentimento de mudança de muita gente nos diversos cantos do interior e na força eleitoral dos grandes centros urbanos, tendo como principal argumento a experiência administrativa de ACM Neto para convencer os baianos de que chegou o momento da alternância de poder.

Agora, a contagem regressiva já começou. Restam apenas as convenções partidárias para oficializar as candidaturas e, em seguida, a campanha ganhará definitivamente as ruas, as redes sociais, os debates e o cotidiano dos eleitores até a votação marcada para 4 de outubro. Até lá, pesquisas continuarão oferecendo retratos momentâneos, alianças ainda poderão ser ajustadas e os discursos se tornarão mais intensos. Mas nenhuma estratégia será mais importante do que a percepção do cidadão sobre aquilo que foi prometido, realizado ou deixado pelo caminho. Como sempre ocorre na democracia, a palavra final pertencerá exclusivamente ao eleitor baiano. A sorte está lançada.