Às vésperas do último encontro antes do segundo turno, ambos devem explicações ao eleitor e têm a responsabilidade de impedir que as propostas sejam sufocadas por ataques pessoais

O último debate presidencial antes do segundo turno, marcado pela TV Globo para sexta-feira, 23 de outubro, precisa representar mais do que uma oportunidade de desgastar o adversário. Em uma disputa cercada de tensão, Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) têm o dever de oferecer ao país uma discussão firme, esclarecedora e respeitosa. O espaço pertence, sobretudo, ao povo brasileiro, que merece conhecer as propostas de quem pretende governá-lo.

A preocupação com o tom do encontro acha respaldo no confronto anterior, realizado pela Band, marcado por acusações de corrupção e provocações entre os candidatos. Na reta final, Lula também formalizou uma proposta de abertura de seus dados financeiros e fiscais, condicionada à mesma iniciativa de Flávio. A cobrança por transparência passou, assim, a ocupar lugar de destaque na disputa.

Transparência é uma exigência legítima. Candidatos devem responder a questionamentos sobre patrimônio, relações políticas e uso de recursos públicos. Mas a cobrança precisa ser acompanhada de documentos, informações verificáveis e oportunidade de resposta. Insinuações repetidas em voz alta não se transformam em provas, assim como uma pergunta incômoda não pode ser descartada apenas porque partiu do adversário.

O risco está em permitir que essa troca ocupe todo o tempo disponível e deixe o cidadão sem respostas para os problemas de sua vida. Quem enfrenta a fila do SUS precisa saber como será atendido. Quem chega ao fim do mês sem dinheiro quer compreender o que será feito pelo emprego e pela renda. Famílias ameaçadas pela violência esperam medidas concretas de segurança. Educação, moradia e equilíbrio das contas públicas também exigem explicações que ultrapassem frases de efeito.

Para o eleitor que ainda considera mudar o voto, o debate deve oferecer elementos de comparação: o que cada candidato pretende fazer, quanto suas propostas custam e como poderão ser executadas. Transformar esse momento em uma sequência de ofensas significa desperdiçar uma oportunidade de esclarecimento e desrespeitar quem acompanha a discussão com seriedade.

A responsabilidade alcança também assessores, parlamentares, influenciadores e demais aliados. Preparar um candidato exige apurar informações, organizar argumentos e antecipar perguntas difíceis. Estimular humilhações e provocações pode render repercussão nas redes, mas empobrece a escolha eleitoral. Cabe aos próprios presidenciáveis estabelecer limites para suas equipes e assumir responsabilidade pelo comportamento de suas campanhas.

À Globo compete conduzir o encontro com firmeza, aplicar as regras de maneira equilibrada e assegurar condições para perguntas e respostas. Entretanto, nenhum regulamento substitui o compromisso dos participantes com a civilidade. O respeito precisa estar presente antes da intervenção do mediador.

Respeitar a democracia inclui reconhecer a legitimidade do adversário, preservar as instituições e aceitar a decisão das urnas. Inclui também compreender que os brasileiros continuarão compartilhando o mesmo país depois da eleição. A disputa pelo voto não pode servir de licença para alimentar hostilidade entre cidadãos.

Lula e Flávio Bolsonaro devem chegar ao último debate preparados para esclarecer, responder e apresentar caminhos. O Brasil merece firmeza sem humilhação, cobrança com fundamento e propostas que possam ser examinadas. Quem pede a confiança do povo precisa demonstrar, diante dele, que sabe exercer o poder com responsabilidade e respeito.