Na reta final, a guerra não será apenas pelo voto, mas também pela narrativa construída a partir de números que ainda terão de enfrentar a realidade das urnas
A Bahia entra na última semana de campanha sob uma avalanche de pesquisas eleitorais. A partir desta segunda feira, 29 de setembro, novos levantamentos registrados no Tribunal Superior Eleitoral começarão a ocupar os espaços de imprensa, as redes sociais e os discursos dos candidatos. Será uma sucessão de percentuais, gráficos, margens de erro e interpretações disputando a atenção do eleitor.
O fenômeno é conhecido. O que muda agora é a intensidade. Em uma eleição apertada, qualquer oscilação pode ser convertida em narrativa. Um ponto a mais vira crescimento. Uma diferença dentro da margem de erro ganha aparência de vantagem. Um levantamento isolado pode ser apresentado como sinal de virada e números muito diferentes entre si inevitavelmente provocarão uma guerra de explicações sobre metodologia, amostragem e credibilidade.
É nesse terreno que o eleitor precisa redobrar a atenção. O registro de uma pesquisa no TSE não representa uma certificação de seus resultados. A Justiça Eleitoral exige o registro e disponibiliza as informações para fiscalização, mas não atesta previamente que os percentuais estejam corretos. Por isso, diante de qualquer levantamento, importa saber quem realizou, qual é o histórico do Instituto, quando realizou, quem contratou, qual foi a amostra, qual a margem de erro e como a pesquisa se comporta diante do conjunto dos demais levantamentos. Nunca é demais lembrar: “Existem empresas idôneas e muitos picaretas em todas as áreas, como também no ramo de pesquisas”.
Também importa conhecer o histórico de quem produz o número. Há institutos com reputação consolidada e uma credibilidade construída ao longo de anos, que naturalmente zelarão da sua imagem que será confrontada com o resultado das urnas. Mas existem também empresas que acumulam questionamentos, processos e decisões judiciais relacionados a pesquisas eleitorais. A TML de Souza Paiva Publicidades está nesse segundo grupo de casos que merecem escrutínio. A empresa possui histórico de processos e decisões judiciais envolvendo pesquisas eleitorais, incluindo episódios de suspensão de divulgação e aplicação de multa.
O mesmo critério deve valer para todos. Não há razão para transformar instituto em torcida organizada. Pesquisa não é candidato. É instrumento estatístico e deve ser tratada como tal. O problema começa quando a fotografia é vendida como destino. Na última semana de campanha, haverá uma verdadeira disputa pela percepção do eleitor, candidatos destacarão os números que lhes interessam. Adversários contestarão metodologias, especialistas serão convocados para explicar diferenças. As redes sociais farão o restante, muitas vezes retirando os números de seu contexto e transformando pequenas oscilações em grandes acontecimentos.
É a guerra de narrativas chegando à última curva. Mas existe uma diferença fundamental entre narrativa e realidade. A pesquisa procura medir o comportamento de uma amostra em determinado momento. A eleição mede o voto efetivamente depositado nas urnas. Entre uma coisa e outra existe uma margem de incerteza que nenhum gráfico consegue eliminar. Observe que hoje, 28 de setembro circula uma pesquisa com o número de indecisos beirando 10 por cento, o que não é mais visto como normal por aqui.
Na Bahia, onde os levantamentos conhecidos apontam para uma disputa acirrada, o cuidado precisa ser ainda maior. Quanto mais equilibrado o cenário, maior a tentação de transformar qualquer alteração em espetáculo. E quanto maior o espetáculo, maior deve ser a desconfiança diante de certezas fabricadas. O eleitor de hoje dispõe de muito mais informação e ferramentas de comparação. Pode consultar o registro oficial, verificar metodologia, comparar pesquisas e conhecer o histórico dos institutos. Não precisa aceitar como verdade o primeiro número que aparecer na tela do celular.
Essa talvez seja a principal defesa contra a enxurrada que vem aí. Não se trata de desconfiar de todas as pesquisas. Trata-se de não acreditar cegamente em nenhuma. Institutos sérios terão a oportunidade de demonstrar sua competência quando seus levantamentos forem confrontados com o resultado oficial. Empresas que apresentarem números muito distantes também terão de responder por suas escolhas metodológicas e pelo desempenho de suas estimativas, a urna será, nesse sentido, o árbitro inevitável.
Depois das 19 horas de 4 de outubro, a guerra de números perderá importância. Gráficos serão substituídos por votos, projeções darão lugar à apuração e cada instituto terá de conviver com aquilo que seus números realmente conseguiram captar. Até lá, a recomendação é simples, observar, comparar e desconfiar do espetáculo.
A eleição pode mudar, o eleitor pode mudar de opinião, fatos novos podem alterar o cenário? sim é possível. Mas uma pesquisa extraordinariamente diferente das demais não se transforma em verdade apenas porque produz uma manchete extraordinária. A última semana será barulhenta, a informação será abundante e as narrativas serão muitas. O discernimento, entretanto, continuará sendo responsabilidade do eleitor.
