Vida interrompida pela espera, poderia ser evitada se o governo já estivesse ouvido o clamor da população

A dor volta a se repetir no sertão baiano. O pequeno Bryan Benício Figueiredo Nascimento, de apenas 20 dias de vida, morreu na manhã deste domingo após uma angustiante espera por uma vaga em UTI neonatal com suporte para cirurgia cardíaca. Natural de Macaúbas, o recém-nascido enfrentava uma cardiopatia congênita grave e dependia exclusivamente da regulação estadual para ter acesso ao tratamento adequado, que nunca chegou.

Bryan nasceu no dia 6 de abril, no hospital municipal da cidade. Em menos de 48 horas veio o diagnóstico devastador. Entubado às pressas, foi transferido para uma unidade em Vitória da Conquista, mas ali não havia estrutura para realizar a cirurgia que poderia salvar sua vida. Desde então iniciou-se uma corrida contra o tempo, mediada pelo sistema de regulação da Secretaria da Saúde do Estado da Bahia, marcada por demora e ausência de respostas.

A família acompanhou dia após dia o agravamento do quadro clínico. A urgência médica era evidente, reforçada por profissionais de saúde, mas esbarrou na falta de leitos especializados disponíveis no estado. A tia do bebê, Sheila Rocha Figueiredo, expressou a dor que agora se espalha por toda a região ao afirmar que o sobrinho se tornou mais uma vítima do sistema e infelizmente mais uma estatística.

O caso evidencia um problema crônico que afeta o interior da Bahia. A centralização dos serviços de média e alta complexidade em poucos centros urbanos sobrecarrega o sistema e deixa milhares de pessoas à mercê da regulação estadual. A demora na transferência de pacientes graves, especialmente recém-nascidos, tem se tornado recorrente e, em muitos casos, fatal.

A dependência exclusiva da regulação para acesso a tratamentos especializados revela a fragilidade de um sistema que não consegue responder com agilidade às demandas urgentes. Faltam leitos, faltam hospitais equipados e faltam políticas públicas eficazes. Falta sobretudo a descentralização do atendimento, responsabilidade que cabe ao governo do estado.

A morte de Bryan reacende uma luta histórica defendida pelo Jornal O Eco, que cobra a implantação imediata de um hospital regional na Bacia do Paramirim. A macrorregião segue desassistida quando o assunto é atendimento de média e alta complexidade, enquanto as prefeituras do sertão, com recursos limitados, não têm condições de ofertar esses serviços essenciais.

A criação de uma unidade hospitalar regional equipada com UTI neonatal, centro cirúrgico e especialidades médicas é uma necessidade urgente. Não se trata apenas de uma demanda administrativa, mas de uma questão de sobrevivência para milhares de pessoas que vivem longe dos grandes centros. Para se ter uma ideia, até o tratamento de hemodiálise, fica distante cerca de 200 km.

A morte de Bryan gerou comoção e indignação em toda a macrorregião. Moradores, profissionais de saúde e lideranças locais lamentam a perda de uma vida que se iniciava e que foi interrompida pela ausência de atendimento adequado. O sentimento coletivo é de revolta diante de uma tragédia que poderia ter sido evitada.

O corpo do bebê retorna para sua cidade natal, onde familiares e amigos se despedem em meio à dor. Fica o luto e permanece a cobrança por mudanças urgentes. O Jornal O Eco reafirma sua luta pela descentralização da saúde pública na Bahia e pela implantação de um hospital regional que possa evitar que novas histórias como a de Bryan se repitam.