Com Targino Gondim à frente de uma iniciativa que reúne grandes artistas, talentos populares e manifestações culturais, o 8º Festival de Forró da Chapada encanta visitantes, movimenta a economia e deixa um exemplo extraordinário para as cidades da Chapada Diamantina e do sertão baiano

Quem disse que outubro não tem São João, que o amor precisa de calendário e que a felicidade escolhe dia para chegar? Em Mucugê, no coração da Chapada Diamantina, a resposta veio embalada pela sanfona, pela zabumba e pelo triângulo. Entre os dias 8 e 11 de outubro de 2026, a encantadora cidade histórica abriu suas portas e seu coração para receber o 8º Festival de Forró da Chapada, transformando ruas, praças, restaurantes e recantos naturais num cenário de alegria, romantismo, cultura e confraternização. Foram quatro dias em que o forró não apenas tocou. Ele abraçou, emocionou, reuniu gerações e mostrou que as tradições nordestinas continuam sendo uma das maiores riquezas do nosso povo.

E que festa bonita de se ver! Pelas ruas de pedras, entre casarões coloridos e o charme da arquitetura colonial, turistas de diferentes idades e regiões se misturaram aos moradores numa celebração que parecia não ter hora para terminar. Durante as tardes ensolaradas, casais se aconchegavam nos restaurantes e barzinhos, brindavam à vida e prolongavam os abraços ao som da música ao vivo. Outros aproveitavam as águas tranquilas, as cachoeiras e as paisagens deslumbrantes da Chapada para celebrar aniversários, bodas e histórias de amor. Ao entardecer, o pôr do sol convidava aos encontros românticos, enquanto a noite anunciava novos espetáculos e mais uma oportunidade de dançar agarradinho.

Mas o encanto de Mucugê foi muito além dos grandes palcos. Nos registros compartilhados por participantes e acompanhados pelo Jornal O Eco, as manifestações culturais que traduzem a verdadeira alma do festival. Entre elas, um artista popular caracterizado, acompanhado de seu boneco músico, transformando uma apresentação de rua num pequeno espetáculo de criatividade, humor e tradição. Em outros momentos, a percussão ganhou protagonismo, com músicos tocando seus instrumentos em plena praça, enquanto sanfoneiros e zabumbeiros mostravam que o forró também floresce nos encontros mais simples, espontâneos e próximos do público.

Havia ainda figuras populares de roupas coloridas, chapéus ornamentados e adereços criativos, personagens que pareciam ter saído das páginas de um cordel para ganhar vida nas ruas de Mucugê. Essa diversidade artística merece reconhecimento especial, porque o forró não se resume aos acordes de uma sanfona. Ele incorpora a dança, a poesia, o artesanato, o teatro popular, o humor, as vestimentas típicas e a sabedoria de quem transforma pequenas apresentações em grandes manifestações de identidade cultural. É o Nordeste contando sua própria história, com simplicidade, talento e uma riqueza que dinheiro nenhum consegue comprar.

Os jovens também deram um espetáculo à parte. Em meio aos animados arrastões do bem, ocuparam as ruas com entusiasmo, acompanharam os músicos, fizeram amizades e provaram que o forró autêntico continua conquistando novas gerações. Enquanto isso, pessoas mais experientes mostravam que a alegria não envelhece. A mistura era perfeita, reunindo avós, pais, filhos, casais apaixonados e grupos de amigos num mesmo compasso. Nas praças, a música aproximava desconhecidos, despertava sorrisos e fazia de cada esquina um convite à celebração.

Por trás dessa grande festa está a determinação de um artista que compreendeu a importância de preservar e valorizar suas raízes. Targino Gondim, um dos mais respeitados sanfoneiros da música nordestina, merece os aplausos não apenas pelo talento que leva aos palcos, mas pela capacidade de incentivar um projeto que aproxima artistas consagrados, novos talentos, manifestações populares e empreendedores. O festival representa a força de uma ideia que ultrapassou os limites do entretenimento e se transformou numa importante vitrine cultural e turística da Chapada Diamantina.

A programação de 2026 reuniu atrações para diferentes públicos, com concursos de trios de forró, aulas de sanfona, oficinas de dança, apresentações de artistas regionais e os tradicionais arrastões do Jipe Amarelo. Entre os destaques anunciados esteve o encontro Três Nordestinos, reunindo Targino Gondim, Flávio José e Santanna, O Cantador, nomes que representam a essência de um gênero musical capaz de transformar saudade em poesia e sentimentos em melodias. Também integraram a programação o Quinteto Sanfônico do Brasil, Marquinhos Café, Trio Forrozão, Bruninho do Acordeon, Rennan Mendes, Gel Barbosa, Balaio Delas, Xamego da Thay, Ivan Greg e diversos outros artistas, numa demonstração de respeito à diversidade e à renovação da cultura nordestina.

Na quinta feira, dia 8, o festival começou com o Concurso de Trios de Forró, às 15 horas, seguido pelas atividades do Jipe Amarelo e pelo aulão de dança. À noite, os shows deram início à programação dos palcos. Na sexta feira, dia 9, a aula de sanfona com Marquinhos Café abriu as atividades, enquanto o encontro Três Nordestinos figurou entre os momentos mais aguardados da programação noturna. No sábado, dia 10, novas oficinas, concursos e arrastões antecederam as apresentações de Targino Gondim, Quinteto Sanfônico do Brasil e outros convidados. No domingo, dia 11, a programação anunciou o encerramento com Targino na Farra, completando quatro dias de celebração da música e das tradições populares.

A equipe do Jornal O Eco esteve presente, participando da festa, acompanhando o movimento nas ruas e registrando momentos que revelam uma das maiores virtudes do festival. A alegria não estava restrita aos palcos. Ela se espalhava pelas mesas dos restaurantes, pelas calçadas, pelos encontros improvisados de músicos, pelas rodas de amigos e pelas manifestações de artistas populares. Os registros mostram, inclusive, a presença de Targino Gondim em meio ao público, dialogando sobre o festival, num ambiente de proximidade que reforça o caráter acolhedor do encontro. Era a cultura acontecendo diante dos olhos, sem formalidades, aproximando pessoas e valorizando talentos que muitas vezes não encontram espaço nos grandes espetáculos.

E enquanto a música encantava, a economia sorria. Hotéis, pousadas, restaurantes, bares, comerciantes, vendedores, artesãos e prestadores de serviços encontraram no festival uma oportunidade de ampliar seus negócios. A circulação de visitantes, o movimento nos estabelecimentos e a ocupação dos espaços públicos evidenciaram a capacidade de um evento cultural bem organizado de impulsionar diferentes atividades econômicas. Tudo isso em outubro, distante do Carnaval, do São João e das festas tradicionais que normalmente concentram os maiores investimentos turísticos.

É justamente nesse aspecto que Mucugê oferece uma lição extraordinária para a Chapada Diamantina, a Bacia do Paramirim e todo o sertão baiano. Quantas cidades não possuem rios de águas cristalinas, cachoeiras, serras, gastronomia singular, artistas talentosos, histórias fascinantes e um povo que sabe receber como ninguém? Quantos municípios ainda esperam descobrir que suas belezas naturais, aliadas à cultura e à criatividade, podem se transformar em oportunidades permanentes de desenvolvimento?
Que gestores públicos, empresários do setor hoteleiro, comerciantes, produtores culturais e organizadores de eventos compreendam essa mensagem.

Não basta esperar pelo Carnaval, pelas festas juninas ou pelas comemorações tradicionais. É preciso criar novos calendários, explorar períodos alternativos, estimular parcerias e oferecer experiências capazes de atrair visitantes durante todo o ano. Festivais de música, encontros de sanfoneiros, celebrações gastronômicas, manifestações folclóricas e eventos que valorizem artistas locais podem abrir novos caminhos para municípios que possuem enorme potencial turístico, mas ainda aproveitam pouco suas próprias riquezas.

Nesse contexto, o Festival de Forró da Chapada encontra um belo paralelo no Encontro de Sanfoneiros de Rio de Contas, outro evento que vem valorizando a música nordestina e fortalecendo a vocação cultural de uma das mais encantadoras cidades históricas da Bahia. Cada um com suas particularidades, os dois encontros demonstram que o forró tem força para mobilizar visitantes, preservar tradições e movimentar a economia regional. São exemplos que merecem incentivo, continuidade e reconhecimento, especialmente por acontecerem fora dos períodos festivos mais convencionais.

Mucugê mostrou também que uma festa verdadeiramente grandiosa não se mede apenas pelo tamanho do palco ou pela fama dos artistas. Sua grandeza está na capacidade de emocionar, acolher, valorizar a cultura e criar lembranças que atravessam o tempo. Está no casal que dança como se fosse a primeira vez, no jovem que descobre o prazer de acompanhar uma sanfona, no artista de rua que arranca aplausos com sua criatividade, no músico veterano que transmite sua experiência e no visitante que parte levando saudade e vontade de retornar.

O 8º Festival de Forró da Chapada chegou ao fim deixando a imagem de uma Mucugê vibrante, acolhedora e orgulhosa de suas tradições. Uma cidade que soube transformar a beleza de suas paisagens e a riqueza de sua cultura numa celebração envolvente, capaz de inspirar outras regiões da Bahia.
E assim, entre o canto da sanfona, o balanço da zabumba, os versos da poesia popular e os abraços de despedida, outubro ganhou um significado especial na Chapada Diamantina. Porque festa boa não termina quando o último músico deixa o palco. Continua no coração de quem viveu, nas fotografias de quem registrou e na saudade de quem já começa a contar os dias para voltar.

Mucugê, neste outubro de 2026, não foi apenas palco de um festival. Foi um encontro de culturas, talentos, gerações e sentimentos. Um lugar onde a tradição ganhou novos passos, o amor encontrou sua melodia e a alegria fez morada. E como diria um velho cantador, quando a sanfona se despede, mas a saudade insiste em ficar, é sinal de que a festa foi bonita demais para terminar.