Declarações do prefeito sobre supostos cortes de recursos e dificuldades na assistência renal ganham novos contornos com rumores de articulações políticas envolvendo o Hospital de Macaúbas; população cobra união e soluções para uma região que ainda sonha com um hospital regional e um centro de hemodiálise.

A saúde pública voltou ao centro do debate político na região após as declarações do prefeito de Macaúbas, Aloísio Miguel Rebonato (MDB), durante evento realizado na última sexta-feira (19), com a presença do pré-candidato ao Governo da Bahia, ACM Neto, e de outras lideranças políticas.

Em seu discurso, o gestor acusou o Governo do Estado de promover perseguição política contra o município, especialmente na área da saúde. Segundo Aloísio, Macaúbas teria perdido um convênio mensal de R$ 180 mil logo após sua eleição.

“Quando eu fui eleito lá na primeira vez, o presente que o governo do estado, em nome do ex-prefeito, deu para Macaúbas foi retirar R$ 180 mil, que era um convênio que tinha com o município. Esse foi o presente que Macaúbas recebeu. Quando foi em janeiro, a gente já não recebeu mais esse recurso”, afirmou.

O prefeito também criticou a condução da política estadual para pacientes renais crônicos do município, que atualmente realizam tratamento de hemodiálise em Brumado. Segundo ele, o deslocamento representa um grande sofrimento para pacientes e familiares.

“A gente tem contato diariamente com as pessoas que fazem a hemodiálise em Brumado. São duas, três vezes por semana. São 200 km para ir, 200 para voltar, 400 e poucos quilômetros, fora aquela pessoa que está lá em Canatiba, que é distante quase 50 km da sede. Então você vê o quanto é sofrido”, declarou.

De fato, a própria Secretaria Municipal de Saúde de Macaúbas já havia informado anteriormente que buscava junto à Secretaria da Saúde da Bahia a transferência dos atendimentos para Seabra, município mais próximo e que dispõe de estrutura para receber pacientes renais da região.

Aloísio afirmou ainda que a tentativa de mudança encontrou resistência.

“E realmente Seabra tem um tratamento diferenciado, tem uma responsabilidade muito grande com a vida. A gente está entrando na Justiça para que a gente possa estar sendo atendido por Seabra”, disse.

Em outro trecho, o prefeito sugeriu motivação política para a negativa do pleito.

“O pessoal do Estado negou mais uma vez o nosso pedido dizendo que a CIB não autorizou, mas autorizou de outra cidade. Então a questão não é técnica, é política. Quem não lê na cartilha, eles não ajudam e faltam com respeito com a população”, declarou.

As afirmações ocorrem em meio a um cenário que vem alimentando intensos comentários nos bastidores políticos da região. O Jornal O Eco apura informações sobre a suposta circulação de um documento que teria sido apresentado a prefeitos de municípios da região com o objetivo de colher assinaturas para um pedido junto ao Governo do Estado visando alterações no comando do Hospital de Macaúbas.

De acordo com relatos obtidos pela reportagem, a iniciativa teria sido conduzida por um gestor municipal e por representantes de uma entidade regional, que teriam visitado gabinetes de prefeitos buscando apoio para a proposta. Até o momento, porém, não há confirmação oficial da existência do documento nem da adesão dos municípios citados.

Caso os fatos venham a ser confirmados, o episódio poderá abrir uma profunda discussão sobre os limites entre divergências políticas e os interesses coletivos da população. Afinal, quando disputas partidárias avançam sobre a gestão da saúde, os maiores prejudicados costumam ser justamente aqueles que dependem do Sistema Único de Saúde para sobreviver.

O debate ganha ainda mais relevância diante das demandas históricas da região. Há anos, lideranças políticas, profissionais da saúde e a própria população defendem a implantação de um Hospital Regional capaz de atender o Vale do Paramirim e municípios vizinhos, reduzindo a dependência de centros mais distantes. A reivindicação inclui também a implantação de um centro regional de hemodiálise, capaz de poupar pacientes de viagens desgastantes realizadas várias vezes por semana.

Durante o mesmo discurso, Aloísio destacou investimentos realizados pela prefeitura na recuperação da Unidade de Pronto Atendimento do município (UPA) após os estragos provocados pelas fortes chuvas.

“Hoje nós temos uma UPA recuperada. Investimos mais de meio milhão de reais para que isso acontecesse com recursos próprios. Nós tivemos uma catástrofe muito grande, chuvas pesadas, torrenciais, em duas horas de relógio”, afirmou.

Enquanto as acusações aguardam manifestação oficial do Governo do Estado e os rumores seguem sendo apurados, uma verdade permanece inquestionável. A saúde pública não pode ser transformada em campo de batalha política. Acima de governos, partidos ou disputas eleitorais, estão milhares de cidadãos que dependem de atendimento digno, transporte adequado, acesso a tratamentos especializados e respeito à própria vida.

A população da região espera que as diferenças políticas sejam superadas em favor de soluções concretas. Porque quando uma ambulância parte de madrugada, quando um paciente enfrenta centenas de quilômetros para fazer hemodiálise ou quando uma família aguarda uma vaga hospitalar, não existe lado político. Existe apenas a urgência humana de quem precisa ser cuidado.