Posturas recentes de prefeitos da região mostram que lideranças podem apresentar suas escolhas políticas ao eleitor sem ultrapassar a linha que separa influência, liberdade e constrangimento
Em períodos eleitorais, prefeitos e outras lideranças naturalmente exercem influência sobre suas comunidades. Podem declarar apoio, apresentar candidatos e explicar as razões de suas escolhas, respeitados os limites estabelecidos pela legislação. A diferença está na maneira como essa influência é exercida. Entre convencer pela história construída e tentar transformar liderança administrativa em instrumento de pressão existe uma distância que merece ser observada pelo eleitor.
Em Ipupiara, o prefeito Marcos Vinícius Rodrigues Moreno, Babaco, oferece um exemplo interessante dessa primeira postura. Ao apresentar publicamente suas escolhas para as eleições, procura relacioná-las à trajetória de parcerias e aos resultados que considera importantes para o município. Antes mesmo de chegar à Prefeitura, Babaco já participava de articulações em busca de investimentos e obras para Ipupiara e, depois de assumir o Executivo, manteve interlocução com diferentes representantes políticos e com o Governo da Bahia.
A mensagem transmitida em seu vídeo não precisa ser interpretada como uma orientação que o cidadão deva seguir automaticamente. Ao contrário, seu aspecto mais positivo está justamente na possibilidade de o eleitor conhecer os argumentos do prefeito, avaliar as parcerias apresentadas, conferir os resultados e decidir livremente se concorda ou não com suas escolhas.
É nesse ponto que surge um contraste recente na própria região. Em Érico Cardoso, o prefeito Eraldo Félix provocou forte repercussão a nível nacional, ao publicar um vídeo, que inclusive foi retirado do seu perfil por determinação da justiça eleitoral, postagem na qual, ao defender determinado alinhamento eleitoral, dirigiu palavras aos integrantes da administração que foram interpretadas como ameaça de desligamento para quem não acompanhasse o grupo político. Entre as declarações divulgadas estava a afirmação de que quem não estivesse disposto a fazer parte daquele “time” deveria pedir para sair, acompanhada da referência à possibilidade de mandar pessoas embora.
O episódio ultrapassou a simples controvérsia nas redes sociais. O Ministério Público Eleitoral levou o caso à Justiça Eleitoral e o TRE-BA determinou liminarmente que o prefeito e o vice retirassem o vídeo, apontando propaganda eleitoral antecipada. A decisão estabeleceu prazo de 48 horas para remoção e multa diária em caso de descumprimento.
A comparação entre os episódios ajuda a compreender uma questão maior do que os próprios nomes envolvidos. Uma liderança pode apresentar candidatos, defender alianças e explicar à população por que considera determinada parceria importante. Outra coisa é permitir que a posição de autoridade do gestor seja confundida com cobrança de fidelidade eleitoral, especialmente quando o discurso alcança pessoas que mantêm relação funcional com a administração pública.
É justamente aí que a postura adotada por Babaco merece reconhecimento. Seu discurso procura convencer pelo histórico que apresenta e pelas relações políticas que considera produtivas para Ipupiara, deixando espaço para que cada morador faça sua própria avaliação. Não há necessidade de concordar com os candidatos escolhidos pelo prefeito para reconhecer a legitimidade dessa forma de participação.
A democracia pressupõe influência, debate e tentativa de convencimento. O que ela não comporta é que o eleitor se sinta ameaçado ou condicionado em sua liberdade de escolha. O voto pertence ao cidadão, independentemente se ele trabalha ou não para a administração pública.
No fim, a melhor contribuição de uma liderança talvez não seja dizer simplesmente em quem a população deve votar, mas explicar por que fez determinada escolha e colocar sua própria história como argumento. Depois disso, cabe ao eleitor analisar quem esteve presente, quais parcerias produziram resultados, quais compromissos foram cumpridos e quais candidatos merecem confiança.
