Sem sócios contribuintes e com estruturas deterioradas, diretoria avalia a possível transferência do patrimônio ao município para garantir sua recuperação e utilização em projetos sociais, ambientais e de geração de renda

Durante décadas, o Clube Social de Boquira foi muito mais que uma agremiação recreativa. Foi o principal ponto de encontro da cidade e uma referência em toda a região, recebendo grandes eventos, bailes, formaturas, comemorações e momentos que permanecem guardados na memória de várias gerações. Histórias de amizade, encontros familiares e até relacionamentos começaram em suas dependências, fazendo do clube uma parte importante da vida social e cultural do município.

Criada em 1983, a Associação Cultural e Recreativa de Boquira surgiu da união de moradores que desejavam construir um espaço capaz de reunir diferentes segmentos da sociedade. Anos depois, com o encerramento das atividades da mineração, a entidade adquiriu também a estrutura que ficou conhecida como Clube da Piscina, passando a administrar duas sedes. Durante muito tempo, as contribuições dos sócios sustentaram os espaços e garantiram a realização de atividades que atraíam moradores de Boquira e de municípios vizinhos.

Esse período de protagonismo, porém, ficou no passado. Com o passar dos anos, a maioria absoluta dos antigos associados deixou de contribuir e de frequentar a agremiação. Atualmente, segundo o presidente Evandro Rego Novaes Filho, o clube não possui nenhum sócio pagando mensalidade. A arrecadação que durante décadas manteve as atividades simplesmente desapareceu, deixando a diretoria sem recursos para conservar duas estruturas grandes, antigas e que exigem manutenção constante.

Evandro assumiu a presidência em 2018 e, desde então, tornou-se uma das principais figuras de resistência na defesa desse patrimônio coletivo. Ele enfrentou desgastes, dificuldades administrativas e batalhas judiciais para recuperar áreas pertencentes à instituição que estavam sendo utilizadas por particulares. Em um desses casos, a Justiça reconheceu o direito de posse da ACRB sobre áreas de 2.612 e 11.900 metros quadrados, determinando a devolução do imóvel.

A vitória judicial garantiu a integridade patrimonial da entidade, mas não resolveu o problema financeiro. Evandro conseguiu preservar as áreas, porém agora enfrenta o desafio ainda maior de evitar que as estruturas se deteriorem por falta de dinheiro. Na avaliação do presidente, manter os imóveis fechados e sem utilização significaria assistir lentamente à destruição de um bem construído com o esforço de muitas famílias boquirenses.

A situação mais preocupante está na sede onde funciona a piscina semiolímpica, com oito metros de largura e trinta metros de comprimento. O custo de manutenção é elevado e, atualmente, o piso e os azulejos das laterais estão se soltando. Uma recuperação adequada exigiria investimento considerável. As quadras, os banheiros, o parque, a cozinha e a churrasqueira também necessitam de reformas. O telhado apresenta infiltrações e diferentes pontos da infraestrutura revelam os efeitos do tempo e da falta de recursos.

No verão, o clube ainda recebe algum dinheiro com a entrada de banhistas que pagam diárias para utilizar a piscina. Durante o restante do ano, porém, essa arrecadação praticamente desaparece. A outra receita informada pela direção vem do aluguel de parte da sede localizada na região mais baixa da cidade, utilizada pelo consórcio intermunicipal, no valor mensal de R$ 2.500. Mesmo quando recebido regularmente, esse montante não seria suficiente sequer para cobrir todos os gastos necessários à conservação da piscina e das demais estruturas.

A sede de baixo já começa a ganhar uma nova utilidade. Parte do imóvel abriga as atividades do consórcio e uma área coberta deverá receber o galpão destinado à separação e prensagem de materiais recicláveis. O espaço também poderá contribuir para a implantação de uma associação de catadores, projetos ambientais, produção de mudas e outras ações capazes de gerar trabalho, renda e benefícios para a população.

Diante desse cenário, Evandro Filho e outros integrantes interessados na preservação do clube passaram a analisar uma solução considerada difícil, mas possivelmente necessária. A proposta em discussão é transferir, por meio de doação, os bens móveis e imóveis da Associação Cultural e Recreativa de Boquira para o município. Dessa forma, as duas sedes poderiam ser recuperadas e destinadas a projetos sociais, ambientais, esportivos, culturais e de geração de emprego e renda.

Evandro considera essa possibilidade uma saída digna para impedir a destruição do patrimônio. Segundo ele, seria preferível entregar legalmente as estruturas ao município, permitindo que toda a população se torne beneficiária dos espaços, em vez de assistir ao fechamento definitivo ou correr novamente o risco de que os imóveis sejam apropriados ou utilizados em benefício de particulares.

A possível doação, entretanto, ainda não está decidida. O presidente ressalta que nenhum ato será realizado de forma apressada. O processo deverá passar por reuniões da diretoria, assembleias com os associados, análise do estatuto, consulta a especialistas, orientações jurídicas, escuta da sociedade e avaliação dos projetos que poderão ser implantados nos imóveis. Tudo deverá obedecer à legislação e às regras internas da instituição.

Evandro afirma que deseja conduzir essa nova etapa com a mesma transparência adotada durante sua administração. A intenção é construir um entendimento que preserve a história da entidade e ofereça segurança jurídica para todas as partes. A Prefeitura também deverá apresentar garantias sobre a finalidade pública dos imóveis, sua conservação e os benefícios que serão oferecidos à comunidade, para isso foi feita no último dia 09 de setembro de 2026, uma reunião na Sede do Clube com a Diretoria e o Prefeito Alan França para dar o primeiro passo na concretização desse projeto.

O presidente lamenta profundamente que uma instituição que já foi o principal ponto de lazer e convivência da região tenha chegado a uma situação tão delicada. Mesmo assim, reconhece que são poucas as alternativas diante da inexistência de mensalidades, do afastamento dos antigos sócios e do elevado custo de manutenção.

O momento exige participação e responsabilidade. A possível transferência do patrimônio não deve ser vista simplesmente como o fim do Clube Social de Boquira, mas como uma tentativa de impedir que sua história desapareça entre paredes rachadas, azulejos soltos e telhados com infiltrações. Caso seja aprovada dentro da legalidade, a mudança poderá representar uma nova etapa, transformando antigas estruturas de lazer em espaços de trabalho, preservação ambiental, inclusão social e desenvolvimento.

Depois de lutar para recuperar áreas que pertenciam à associação e manter os imóveis íntegros, Evandro Filho se vê diante de uma decisão histórica. Para ele, existem dois caminhos. Permitir que o clube permaneça fechado e se desintegre lentamente ou buscar uma destinação pública capaz de mantê-lo vivo e útil. A resposta dependerá dos sócios, das autoridades, dos especialistas e da sociedade boquirense, mas uma realidade já não pode ser ignorada. Sem participação, recursos e uma solução urgente, um dos maiores símbolos sociais da história de Boquira corre o risco de desaparecer.