Levantamento aponta avanço do déficit, queda expressiva do caixa livre e aumento das obrigações, enquanto governo destaca investimentos e baixo endividamento
As contas públicas da Bahia chegam ao último ano da gestão Jerônimo Rodrigues com sinais de deterioração que merecem atenção. Levantamento publicado pelo jornal Folha de São Paulo, com base em números oficiais e estimativas do próprio Estado, mostra uma mudança significativa no cenário fiscal encontrado pelo governador em 2023. O governo anterior, de Rui Costa, encerrou seus quatro últimos anos com superávit orçamentário acumulado de R$ 8,48 bilhões, em valores corrigidos pela inflação. Já o atual mandato poderá terminar 2026 com déficit acumulado de aproximadamente R$ 7,3 bilhões, ou seja, Jerônimo conseguiu zerar o caixa e se endividar em dobro.
É importante observar que parte desse número ainda é projeção. Em 2025, a Bahia registrou superávit orçamentário de R$ 480 milhões. Para 2026, porém, documentos oficiais referentes ao final do terceiro bimestre apontam projeção de déficit de R$ 5,72 bilhões, resultado que, se confirmado, provocará forte impacto no balanço acumulado do atual governo. Observem que os números mostram Bilhões de reais.
Outro indicador chama ainda mais atenção por mostrar quanto dinheiro permanece efetivamente disponível depois de consideradas obrigações já assumidas. O caixa livre da Bahia, descontados os restos a pagar, caiu de R$ 5,3 bilhões no final de 2022 para apenas R$ 900 milhões ao término de 2025. É uma redução de aproximadamente 83% em três anos e representa o esvaziamento de boa parte da reserva financeira recebida pela atual administração.
O resultado primário também mudou de direção. Enquanto os últimos quatro anos de Rui Costa acumularam saldo positivo de R$ 13,5 bilhões, as projeções utilizadas no levantamento indicam que Jerônimo poderá terminar seu mandato com déficit primário acumulado de R$ 3,32 bilhões. Em 2025, o próprio governo alterou a meta de déficit primário de R$ 1,1 bilhão para R$ 4,2 bilhões, medida que recebeu ressalvas do Tribunal de Contas do Estado.
A contrapartida para a utilização de parte desse espaço fiscal aparece principalmente nos investimentos. Considerando as estimativas para todo o ano de 2026, a atual gestão deverá alcançar R$ 29,1 bilhões investidos, contra R$ 23,4 bilhões no período anterior analisado. O governo argumenta justamente que utilizou recursos acumulados em exercícios anteriores para ampliar obras e investimentos em saúde, educação, segurança, rodovias, mobilidade e saneamento. A Secretaria da Fazenda sustenta ainda que o endividamento permanece baixo e que não existe risco de insolvência.
Há ainda outra pressão importante para os próximos anos. O déficit da Previdência estadual passou de aproximadamente R$ 6 bilhões em 2022 para R$ 7,1 bilhões em 2025. Paralelamente, especialistas ouvidos pela Folha alertam para o crescimento dos restos a pagar, porque despesas assumidas e ainda não quitadas representam compromissos que recaem sobre o caixa dos exercícios seguintes.
A fotografia das finanças baianas, portanto, exige duas leituras simultâneas. De um lado, a Bahia continua com dívida e despesas de pessoal em patamares elevadíssimos e o argumento é de que ampliou significativamente os investimentos. Do outro lado, perdeu grande parte do caixa livre acumulado, passou a conviver com resultados fiscais mais frágeis e poderá fechar 2026 com déficit orçamentário bilionário.
O alerta maior está justamente no futuro. Investir recursos acumulados não representa, isoladamente, irresponsabilidade fiscal. O problema surge quando a redução dessas reservas passa a conviver por tempo prolongado com déficits, crescimento das obrigações e despesas permanentes. Com o caixa livre caindo de R$ 5,3 bilhões para R$ 900 milhões, a margem para absorver novos desequilíbrios ficou muito menor.
Em pleno ano eleitoral, os números colocam as contas públicas no centro do debate sobre a Bahia que será entregue ao próximo governador. Jerônimo poderá apresentar como vitrine o aumento dos investimentos. Seus adversários terão como argumento a perda do colchão financeiro e a deterioração dos resultados fiscais. Para além da disputa política, porém, a pergunta essencial é outra: até que ponto o Estado poderá continuar mantendo elevado ritmo de gastos e investimentos sem recompor suas reservas e preservar a capacidade financeira dos próximos anos?
