A trajetória política da deputada estadual eleita Vilma Reis começou muito antes de a socióloga, professora e defensora dos direitos humanos conquistar espaço nas urnas. Ainda adolescente, aos 15 anos, ela já participava de mobilizações em defesa da escola pública em Salvador. Mais de quatro décadas depois, a militante do movimento de mulheres negras se prepara para assumir uma cadeira na Assembleia Legislativa da Bahia, conhecida pela sigla AL-BA.
Mulher negra, de 57 anos, nascida em Salvador e criada em Nazaré das Farinhas, no Recôncavo baiano, Vilma construiu sua formação política a partir das experiências da própria família e das desigualdades que atravessaram sua juventude. Filha de um trabalhador ferroviário e neta de uma mulher que valorizava a educação como caminho de transformação, ela passou pelo movimento estudantil, pela pesquisa acadêmica e por instituições públicas antes de ingressar na disputa eleitoral.
Da infância marcada por deslocamentos à formação em Salvador
A história da futura parlamentar começa em uma família cuja relação com a política foi marcada pela luta dos trabalhadores. Embora tenha nascido em Salvador, em 29 de outubro de 1969, Vilma passou parte da infância em Nazaré das Farinhas, para onde foi aos três anos. Seu pai trabalhava na Rede Ferroviária e participou de uma mobilização de funcionários que estavam há meses sem receber salários. Após o movimento, segundo ela, ele foi expulso da cidade.
A família voltou para Salvador, onde o pai passou a trabalhar como barraqueiro nas festas populares. A atividade aproximou Vilma de uma parte da cultura da cidade que, na avaliação dela, também representava uma forma de resistência dos trabalhadores negros. Nas festas de largo, as barracas precisavam disputar espaço e negociar sua permanência com o poder público anualmente.
Na adolescência, ela trabalhou como empregada doméstica e como feirante no interior. Mesmo diante das dificuldades, seguiu em busca de uma formação acadêmica e de construir outro caminho por meio da educação. Já de volta à capital, estudou em escolas públicas e se envolveu com atividades culturais e políticas, chegando à presidência do grêmio estudantil do Colégio Central.
Atuação acadêmica, internacional e o combate ao racismo institucional
A militância também esteve presente na busca por moradia. Aos 19 anos, participou de uma ocupação na terceira etapa de Castelo Branco, em Salvador. Aos 21 anos, passou a morar na residência universitária da Universidade Federal da Bahia, onde continuou envolvida com o movimento estudantil, o movimento negro e a organização de mulheres.
A formação acadêmica se desenvolveu em paralelo à militância, que também a aproximou de debates internacionais sobre racismo e diáspora africana. Em 1993, Vilma foi para Viena, na Áustria, onde viveu por dois anos. No período, teve contato com outras experiências políticas e ampliou suas referências intelectuais com autores como Frantz Fanon, Abdias Nascimento, Aimé Césaire e Lélia Gonzalez.
De volta à Bahia, ingressou na Universidade Federal da Bahia e aprofundou a atuação acadêmica. Integrou o programa Cor da Bahia e atuou no CEAFRO, programa de educação para a igualdade racial e de gênero ligado à universidade, do qual se tornou coordenadora executiva. O trabalho envolveu profissionais dos distritos sanitários de Salvador para ampliar a compreensão sobre os efeitos do racismo no atendimento à saúde, com foco em condições como anemia falciforme, hipertensão, diabetes e glaucoma.
Trajetória na defensoria e chegada ao Poder Legislativo
Depois da formação acadêmica, Vilma ingressou na docência universitária. Em 2009, começou a lecionar na Universidade do Estado da Bahia, no campus de Seabra, na Chapada Diamantina, trabalhando com estudantes quilombolas. Em 2015, foi eleita pela sociedade civil para a função de ouvidora-geral da Defensoria Pública do Estado da Bahia, cargo que ocupou até 2019, período em que também presidiu o Conselho Nacional das Ouvidorias Externas das Defensorias Públicas do Brasil.
Antes de ingressar na política partidária, liderou o movimento de mulheres negras na Prefeitura de Salvador. Em 2022, concorreu a deputada federal, obteve 60.949 votos e ficou na suplência. Em 2026, foi eleita com 83.222 votos, sendo a 18ª mais votada no pleito estadual.
Prioridades para o mandato parlamentar e representatividade
Para o mandato na Assembleia Legislativa, Vilma Reis defende propostas voltadas ao combate ao racismo, à violência contra mulheres e à discriminação, além da ampliação de direitos sociais. Entre as prioridades estão o fortalecimento do Sistema Único de Saúde, a valorização dos trabalhadores, a defesa dos territórios quilombolas e indígenas e a ampliação do acesso à educação.
Na área da segurança pública, a socióloga defende uma atuação orientada pelos direitos humanos, com acompanhamento da letalidade policial e ampliação da rede de atendimento às mulheres vítimas de violência. Ela também se posiciona contra a chamada guerra às drogas, apontando que a medida atinge principalmente a população negra e periférica.
A chegada de Vilma ao legislativo baiano ganha relevância diante da eleição de Olívia Santana para a Câmara dos Deputados. Referência na defesa dos direitos da população negra, Olívia era a única mulher negra no Parlamento baiano. Para Vilma, a presença de uma única representante nessa condição é insuficiente e exige esforço coletivo para ampliar a ocupação de espaços de poder.
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