Para muitas mulheres o dia 08 de março significa um dia para se comemorar grandes vitórias e conquistas, e na política não é diferente, afinal, cada vez mais as mulheres vem ocupando cargos políticos outrora conferidos única e exclusivamente aos homens. Entretanto, na Bahia de Joana Angélica, Maria Quitéria e tantas outras mulheres que fizeram nossa história, possuímos tão somente 63 prefeitas, num estado que tem hoje 417 municípios, e que segundo o TRE (Tribunal Regional Eleitoral), são as mulheres, a maioria do eleitorado baiano.

A inexpressiva participação feminina na política é um mal herdado há milênios de dominação masculina somados à cultura, dos 30% de vagas reservados às mulheres dentro dos partidos políticos, não chega a 10% de preenchimento, uma demonstração clara de que a mulher ainda não absorveu a ideia de ocupação deste espaço, assim como a sociedade. A criação da lei nº 9504/97, apesar de recente, já deveria ter inspirado uma maior mobilização das mulheres para assumir expressivamente nosso panorama político.

Numa data cujo objetivo é chamar a atenção da sociedade para o papel e a dignidade da mulher, bem como despertar a consciência do seu valor, perceber o seu papel na sociedade, contestar e rever os preconceitos e limitações que vêm sendo impostos à mulher, é preciso levar à prática os direitos conquistados na legislação. A progressiva participação das mulheres na vida política deflagrada no século XX deve ser vista sob a perspectiva de relevantes mudanças sociais, culturais e políticas da sociedade, seja naquele tempo, seja agora, além disso, é preciso lembrar que as mulheres ganharam espaço graças a sua própria mobilização. 

COTAS – Mesmo com a introdução de cotas são necessárias outras ações afirmativas para que as cotas não se transformem apenas em obrigatoriedade, sem a efetiva parceria entre mulheres e homens na condução das questões políticas. A adoção de cotas sem dúvida incrementou a presença de mulheres na política, todavia, a questão chave não é tão somente eleger mais mulheres, o fator “mulher” não é determinante numa eleição, eleger uma mulher pelo simples fato de ser mulher, recoloca em outra situação igualmente constrangedora. Não se quer aqui medir forças entre homens e mulheres, numa espécie de “cabo de guerra”, e sim, uma luta saudável de sexos diferentes, pois nada impede a natureza feminina de governar, a não ser a própria consciência da mulher.

As mulheres são um bom exemplo de quanto é longo o caminho da luta pela expansão real dos direitos de cidadania aos muitos segmentos oprimidos de uma sociedade. Mais do que nunca, é preciso continuar lutando por uma “política de presença”, onde a representação política da mulher é de extrema importância. Cabe à mulher, relacionar suas necessidades concretas com o ativismo político, como qualquer outro grupo social que necessita da arena pública para exercer influência política e atingir seus objetivos.

FEMINILIZAR – Não basta governar o lar e a casa, conduzir a educação dos filhos e formar parceria com o marido, há uma urgência social em se feminilizar a política. Porque não governar uma cidade, um estado, um país? A plena participação da mulher na vida política, em condição de igualdade e o fim de todas as formas de discriminação baseadas no sexo conduzirão nossos municípios, estados e, consequentemente, o país, a um tempo em que homens e mulheres da vida pública lutarão juntos em prol da melhoria de vida daqueles que foram as urnas em busca de mais dignidade, respeito e futuro.

Embora as mulheres sejam 50,78% da população do país, ainda há a necessidade da criação de políticas para que a igualdade entre os gêneros tenha validade legal e seja ao menos minimizada. Segundo Lourdes Bandeira, professora do Dep. de Sociologia da Universidade de Brasília, onde coordena o Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher, “em todos os níveis de ensino, elas apresentam maior taxa de escolaridade do que os homens. Em compensação permanecem as diferenças de acesso ao mercado de trabalho, aos salários e a sua condição de empobrecimento. Evidencia-se, portanto que as diferenças de gênero, seja na esfera do trabalho, na política, da saúde ou mesmo da educação, ainda são mantidas e reafirmadas pela situação diferenciada do status das mulheres em relação ao dos homens, que estabelecem hierarquias de gênero, traduzidas em preconceitos e violências, aprofundando cada vez mais as relações assimétricas de poder que acabam por reger as relações entre os gêneros” 

Nos últimos anos, a mulher desenvolve uma diversificada trajetória política no país. Das Marchas da Família com Deus pela Liberdade que comemoraram o golpe militar em 1964, na votação do projeto de anistia no Congresso em agosto de 1979, e na manifestação pelas eleições presidenciais diretas, em Brasília, 1984. Em cada período da história brasileira, a mulher, através de grupos de lideranças, tem participado dos movimentos contemporâneos, embora frequentemente sua presença seja omitida. Assim, a questão da mulher ganha espaço social e institucional, revelando mudanças na sociedade brasileira.