Estimativa do IBGE aponta avanço populacional, enquanto a região ainda cobra dos governos estadual e federal hospital regional, universidade pública, saúde especializada, segurança hídrica e a conclusão de investimentos estruturantes

Os novos números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam uma realidade que merece reflexão. Enquanto cresce a população da Bacia do Paramirim e de municípios próximos do Sertão Produtivo, Chapada Diamantina, Velho Chico e região, a oferta de grandes obras e serviços públicos estaduais e federais ainda não acompanham, na mesma velocidade, as necessidades desse pedaço da Bahia.

Nos 18 municípios analisados pelo Jornal O Eco, a população somada passou de 361.214 habitantes no Censo de 2022 para uma estimativa de 376.418 em 2026. São 15.204 habitantes a mais, crescimento aproximado de 4,21%. Livramento de Nossa Senhora lidera o ranking, com crescimento estimado de 5,86%, seguido por Brumado, com 5,82%. Ipupiara aparece em terceiro, com 4,45%. Na Bacia do Paramirim, Macaúbas lidera, com 4,13%, seguida por Botuporã, 3,80%, Paramirim, 3,70%, Ibipitanga, 3,28%, Caturama, 3,23%, Érico Cardoso, 3,09%, Rio do Pires, 2,54%, e Boquira, 2,08%. Novo Horizonte, na Chapada Diamantina, cresce 3,97%, enquanto Dom Basílio registra 3,90%, Tanque Novo 3,83%, Brotas de Macaúbas 3,61%, Rio de Contas 3,47%, Oliveira dos Brejinhos 2,90% e Ibitiara 2,73%.

A população cresce. E a estrutura? É justamente na Bacia do Paramirim que os números reforçam uma antiga reflexão. A região continua reivindicando investimentos que dependem principalmente dos governos do Estado e Federal e que poderiam reduzir desigualdades históricas no acesso a direitos e serviços públicos. Faltam estruturas capazes de evitar que moradores tenham de percorrer centenas de quilômetros em busca de determinados atendimentos de média e alta complexidade. A região continua sem um hospital regional e ainda espera uma presença universitária pública compatível com sua população, capaz de oferecer formação superior e oportunidades aos jovens sem obrigá-los a deixar suas cidades.

Na infraestrutura hídrica, a Barragem do Rio da Caixa, talvez seja um dos exemplos mais emblemáticos. Trata-se de uma obra de grande vulto, com investimento anunciado de R$ 123,1 milhões do Governo Federal e execução sob responsabilidade do Estado, através da CERB. O empreendimento foi concebido para ampliar a disponibilidade de água e fortalecer a segurança hídrica regional. A importância da barragem vai além de Rio do Pires. A própria Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), ao estabelecer regras para o sistema hídrico do Zabumbão, já vinculava o abastecimento de municípios como Rio do Pires, Ibipitanga, Macaúbas, Ibitiara e Boquira à interligação dos reservatórios Rio da Caixa e Zabumbão através de uma adutora com fluxo reversível.

Isso demonstra que Rio da Caixa não representa uma obra isolada. Concluída e devidamente integrada ao sistema, poderá se transformar em peça estratégica para ampliar a segurança hídrica do Vale do Paramirim e reduzir a pressão sobre o Zabumbão. O problema é a velocidade. Em março de 2026, informações apresentadas pela CERB, indicavam apenas 12,84% de execução, com previsão de conclusão no segundo semestre de 2027. O ritmo alimenta preocupação regional e, diante de notícias sobre interrupções dos serviços, aumenta a necessidade de transparência dos órgãos responsáveis sobre o estágio atual, o cronograma e a efetiva continuidade da obra.

Direitos que não podem permanecer no papel. O caso da Barragem do Rio da Caixa simboliza uma questão maior. Ao longo dos anos, a Bacia do Paramirim acumulou anúncios, projetos, ordens de serviço e expectativas em torno de obras estruturantes. Algumas avançaram, outras enfrentaram lentidão, interrupções ou longos períodos entre o anúncio e a entrega.

Enquanto isso, as necessidades permanecem. Saúde especializada, hospital regional, universidade pública, segurança hídrica, saneamento e outras estruturas indispensáveis ao desenvolvimento não podem ser tratados como benefícios extraordinários concedidos pelo poder público. São investimentos relacionados a direitos básicos e à obrigação dos governos de reduzir desigualdades entre regiões. O crescimento populacional revelado pelo IBGE torna esse contraste ainda mais evidente. A Bacia do Paramirim cresce, produz e amplia sua população, mas continua convivendo com um vazio de serviços estaduais e federais incompatível com sua importância regional.

Os números deixam, portanto, uma pergunta que precisa chegar aos governos do Estado e Federal: se a população cresce e as demandas aumentam, por quanto tempo obras essenciais, serviços especializados e investimentos estruturantes continuarão avançando mais devagar do que as necessidades de quem vive na Bacia do Paramirim?

RANKING REGIONAL — CENSO 2022 X ESTIMATIVA 2026

Posição Município Região 2022 2026 Crescimento
1º Livramento de Nossa Senhora Sertão Produtivo 43.903 46.476 5,86%
2º Brumado Sertão Produtivo 70.510 74.617 5,82%
3º Ipupiara Irecê 9.935 10.377 4,45%
4º Macaúbas Bacia do Paramirim 41.859 43.587 4,13%
5º Novo Horizonte Chapada Diamantina 11.162 11.605 3,97%
6º Dom Basílio Sertão Produtivo 11.884 12.348 3,90%
7º Tanque Novo Sertão Produtivo 17.158 17.815 3,83%
8º Botuporã Bacia do Paramirim 11.024 11.443 3,80%
9º Paramirim Bacia do Paramirim 20.351 21.104 3,70%
10º Brotas de Macaúbas Velho Chico 11.765 12.190 3,61%
11º Rio de Contas Chapada Diamantina 13.184 13.641 3,47%
12º Ibipitanga Bacia do Paramirim 13.863 14.318 3,28%
13º Caturama Bacia do Paramirim 8.841 9.127 3,23%
14º Érico Cardoso Bacia do Paramirim 10.604 10.932 3,09%
15º Oliveira dos Brejinhos Velho Chico 20.715 21.315 2,90%
16º Ibitiara Chapada Diamantina 14.637 15.036 2,73%
17º Rio do Pires Bacia do Paramirim 10.497 10.764 2,54%
18º Boquira Bacia do Paramirim 19.322 19.723 2,08%

Fonte: IBGE — Censo Demográfico 2022 e Estimativas da População 2026.