Jenifer* tem apenas 3 meses e, embora não tenha consciência do mundo à volta, já sabe como é a rotina em uma prisão. Desde que nasceu, mora em uma das unidades do Complexo Penitenciário de Mata Escura.

É lá que estão presos a mãe dela, Franciele Souza*, de 28 anos, e o pai, Mauro Souza*, 35, que cumprirão 15 e 13 anos de prisão, respectivamente, ambos pelo crime de tráfico de drogas. É lá que o bebê ficará até completar 6 meses, quando será levado para morar com a avó paterna, no interior da Bahia.

Depois disso, é provável que Jenifer leve um bom tempo até rever os pais; como a irmã Raiane* de 8 anos – a outra filha de Franciele, fruto de uma relação anterior – que há um ano e cinco meses não vê a mãe.

"Ela imagina que estou viajando. Não quero que minha filha saiba que estou presa, que sofra preconceito lá fora por conta disso", explica Franciele.

Honra

Pelo mesmo motivo, Gabriel*, de 12 anos, há dois anos e meio não vê o pai, o carreteiro e instrutor de trânsito Anderson Azevedo*, de 37 anos. Como Raiane, ele acredita que o pai está viajando a trabalho e que logo vai voltar para casa.

A comunicação entre os dois, que não tem período certo para ocorrer,  é feita por telefone. Na última vez em que se falaram, Gabriel perguntou: "Pai, você vem no meu aniversário? Estou com muita saudade".

Anderson não soube o que dizer ao filho. Em silêncio, apenas chorou, porque sabe que é provável que não volte nem para o próximo aniversário dele, em novembro, nem no ano seguinte.

Talvez Gabriel tenha que esperar muito tempo ainda para rever e dar um abraço no pai. Se depender da determinação da Justiça, pelo menos mais dez anos.

Ele foi condenado a 12 anos por um homicídio cometido em 1997. Uma briga na porta de um bar no bairro onde morava o levou à cadeia.

"Naquela época, achava que ter honra era não levar desaforo para casa. Hoje sei que tem honra quem sabe ter equilíbrio diante dos desafios da vida", acredita.

Como era réu primário, foi julgado em liberdade e o processo durou nove anos, até que fosse condenado, em 2008.

Nesse intervalo, casou e teve Gabriel. Em 2011, o rapaz se entregou e, desde então, é um dos 1.252 detentos que cumprem pena no maior presídio do Estado, a Penitenciária Lemos Brito.

Anderson sabe que o sigilo pode mantê-lo longe do filho por muito mais tempo, mas não contar que está preso foi a forma que ele diz ter encontrado para protegê-lo.

"Quero poupá-lo da vergonha de ter um pai custodiado, da aflição que deve ser ficar imaginando como é a minha vida aqui dentro".

Ao ser questionado como é a vida dentro da prisão, afirma: "As pessoas lutam pela pena de morte. O que muitos não sabem é que ela já existe dentro dos presídios brasileiros. Morremos um pouco todos os dias porque a sociedade esquece que  o preso deve ter privado o seu direito à liberdade, mas não de ser humano", resume.

Apesar do receio de revelar que está preso, Anderson diz que já está preparando o filho para uma conversa.

"Sempre digo que preciso falar  sobre algo que fiz no passado. Na última vez que a gente se falou, ele me disse: 'Pode dizer pai, já estou preparado para ouvir'. Foi quando percebi que, na verdade, eu é que ainda não estou pronto para contar".

Anderson sabe que, caso não ocorra o relaxamento da pena, quando sair da prisão Gabriel já será um homem.

"Espero muito sair antes. Dividir as coisas com ele e ensinar de perto o que fui obrigado a aprender da pior forma possível: nenhum sangue,  ofensa,  honra vale a privação da nossa liberdade", diz o carreteiro, que pode revelar o segredo ao filho na próxima ligação. "Quem sabe isso aconteça. O desejo existe", diz.

Então, que não lhe falte coragem.

Reportagem: A Tarde Online