Ato político da oposição em Feira consolidou a aliança em torno de ACM Neto, Zé Cocá, João Roma e Ângelo Coronel e, ao mesmo tempo, reforçou a utilidade de Ronaldo Caiado como ponte para atrair lulistas insatisfeitos sem radicalizar o discurso na Bahia

A política baiana ganhou, em menos de 24 horas, dois movimentos que se conectam de forma quase automática e ajudam a explicar o desenho da disputa de 2026. De um lado, o PSD oficializou em São Paulo a pré candidatura do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, à Presidência da República. Do outro, a oposição baiana realizou, em Feira de Santana, o ato de lançamento de sua chapa majoritária, consolidando ACM Neto como pré candidato ao governo, Zé Cocá como vice e João Roma e Ângelo Coronel na composição para o Senado. Mais do que coincidência de calendário, os dois fatos revelam uma engrenagem política em formação, com repercussão direta no tabuleiro da Bahia. O evento em Feira foi tratado como demonstração de unidade, força territorial e largada organizada da oposição, reunindo lideranças de várias regiões do estado e tendo o prefeito José Ronaldo como anfitrião político da movimentação.

A escolha de Feira de Santana não foi casual. Segunda maior cidade da Bahia, polo econômico do interior e território historicamente decisivo em eleições estaduais, Feira foi transformada pela oposição em palco de afirmação de viabilidade política. O simbolismo foi duplo. De um lado, a tentativa de mostrar capilaridade no interior e presença concreta fora da capital. Do outro, a valorização de um espaço onde a oposição tradicionalmente enxerga potencial de crescimento eleitoral. Ao reunir prefeitos, deputados, vereadores, dirigentes partidários e quadros regionais, o grupo de ACM Neto procurou enviar uma mensagem simples, mas poderosa. A oposição quer sair da condição de expectativa e entrar, desde já, em ritmo de campanha.

Mas o que parecia, à primeira vista, um movimento restrito ao cenário estadual, ganhou imediatamente dimensão nacional com a entrada oficial de Caiado no jogo presidencial. A conexão entre os dois atos se tornou ainda mais evidente porque ACM Neto já vinha sinalizando apoio ao governador de Goiás como um nome natural para a disputa ao Planalto. E agora, com Caiado oficialmente lançado pelo PSD, esse apoio deixa de ser hipótese e passa a ter peso estratégico real. Não se trata apenas de afinidade política. Trata se de cálculo eleitoral. Caiado oferece à oposição baiana algo que poucos nomes da direita nacional hoje conseguem entregar com a mesma eficiência, um discurso conservador sem a obrigação de mergulhar integralmente na retórica mais agressiva do bolsonarismo.

Esse detalhe é central para entender a utilidade política de Caiado na Bahia. O estado continua sendo um dos principais territórios simbólicos do lulismo no país, com forte memória eleitoral, presença capilar do PT e vínculos históricos entre amplas parcelas do eleitorado e o campo político do presidente Lula. Ao mesmo tempo, cresce, em vários segmentos, uma insatisfação concreta com o governo estadual, especialmente em temas como segurança pública, infraestrutura, saúde e presença administrativa no interior. É justamente nesse espaço de desconforto, mas não necessariamente de ruptura ideológica, que a aliança com Caiado pode se tornar valiosa para ACM Neto.

Ao contrário de um nome excessivamente identificado com o bolsonarismo mais duro, Caiado aparece como uma opção nacional mais institucional, mais ligada à ideia de gestão e mais palatável para eleitores que hoje demonstram fadiga com a atual administração baiana, mas ainda resistem a aderir a um palanque que soe como guerra ideológica. Em outras palavras, ele funciona como uma ponte. Uma candidatura presidencial de centro direita com perfil de ordem, autoridade e experiência pode ajudar a oposição baiana a dialogar com lulistas insatisfeitos sem exigir deles uma travessia brusca para um campo de confronto mais radicalizado.

Nesse sentido, o ato de Feira de Santana teve importância maior do que a mera formalização de nomes. Ele serviu para dar forma a uma narrativa. A oposição quer se apresentar não apenas como bloco eleitoral, mas como campo político apto a disputar o centro do debate baiano. E, nesse esforço, a figura de Caiado pode ser funcional. Ao mesmo tempo em que mantém conexão com o eleitor conservador, ele oferece uma moldura nacional menos tóxica para a construção do palanque estadual de ACM Neto. Isso ajuda a explicar por que, mesmo em meio às definições locais, o fator presidencial já aparece como peça importante da engenharia da oposição.

Há ainda um componente simbólico adicional. O lançamento da chapa em Feira ocorreu sob o discurso de unidade e composição, algo que a oposição vinha buscando há meses. A presença de nomes como João Roma e Angelo Coronel, ao lado de ACM Neto e Zé Cocá, foi desenhada para demonstrar convergência e amplitude. E é justamente nesse tipo de arquitetura política que um nome como Caiado se encaixa melhor. Ele não estreita o campo, ele alarga. Permite à oposição baiana se conectar com a direita, mas sem se aprisionar exclusivamente a ela. Permite manter firmeza contra o PT, sem transformar a eleição estadual numa simples réplica automática da guerra nacional.

Esse é, talvez, o principal ganho político que o lançamento da chapa em Feira revela à luz da pré candidatura de Caiado. ACM Neto parece compreender que, para voltar a ser competitivo na Bahia, não basta apenas falar com seu eleitor tradicional. Será necessário ampliar fronteiras, reduzir rejeições e construir um discurso capaz de alcançar o eleitor frustrado, silencioso e pragmático, aquele que não se sente mais plenamente representado pelo grupo governista, mas também não quer ser empurrado para os extremos. É aí que Caiado deixa de ser apenas um presidenciável e passa a funcionar como ferramenta de modulação política.

A pré campanha, portanto, começou com um recado claro vindo do interior da Bahia. O ato de Feira de Santana não foi apenas um lançamento de chapa. Foi uma tentativa de mostrar que a oposição quer chegar em 2026 menos dependente da raiva e mais apoiada na ideia de reorganização política. E, nesse desenho, a presença de Caiado no horizonte presidencial oferece a ACM Neto um ativo raro, o de poder disputar o voto da mudança sem transformar essa mudança, necessariamente, em ruptura ideológica. Isso, na Bahia de hoje, pode valer muito mais do que um simples palanque.