Dr. José Diniz de Moraes é paramirinhense, Advogado, músico, poeta, escritor, Procurador do

Ministério  Público do Trabalho em Natal – RN

 

******Passavam das cinco horas da manhã. Saíra cedo para comprar pão na padaria de Tião, coisa que fazia quase todos os dias. A preguiça, o sol, o passo curto, o caminho de pedra e tudo o mais estavam como sempre, e parecia um dia comum. Com os primeiros raios de sol, algumas portas já se abriam e escancaravam-se muitas janelas. Era um domingo, acho que do ano de 1982. Não pensava em nada, apenas andava maquinalmente como quem trabalha em linha de produção.
******Logo que contornei a lateral da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, sob um pálido cacto da velha praça, avistei um jornal com inscrições vermelhas com as páginas sendo desfraldadas pelo vento. Apanhei-o despretensiosamente e vi de pronto a chamada em letras garrafais: “Manifesto do Partido Comunista, em Quadrinhos, 1848 – de Karl Marx e Friedrich Engels”. Mais acima, com letras menores, “P.O.R.B. – Partido Operário Revolucionário Brasileiro”. Sentei-me em um banco próximo da praça e comecei a folhear o caderno editorial. Todo o conteúdo do panfleto era o texto do Manifesto, com figurinhas e comentários adicionais.
******Após a propaganda ideológica do partido, li aterrado na primeira página: “A história de todas as sociedades que existiram até aos nossos dias é a história da luta de classes. Homens livres e escravos, patrícios e plebeus, senhores e servos, mestres e oficiais, numa palavra: opressores e oprimidos, em oposição constante, travaram uma guerra ininterrupta, ora aberta, ora dissimilada, uma guerra que acabava sempre pela transformação revolucionária de toda a sociedade, ou pela destruição das duas classes beligerantes”.
******Eu não saberia descrever a sensação de alegria que se misturou com um intuitivo temor de castigo. Nunca ouvira falar do partido ou dos autores do Manifesto, mas a mensagem me agradava, assim como pude supor que talvez não agradasse a muitos, a partir do que já ouvira sobre certos temas, naqueles tempos de ditadura militar e de Educação, Moral e Cívica.
******Não tinha também muita clareza sobre o que era a ditadura, sabia apenas, de tanto ouvir falar, que salvaram a pátria dos comunistas e dos socialistas. E vez por outra, que impunham com mãos de ferro a única bandeira nacional defensável: a da família, de Deus e da propriedade. Não tinha ideia também do que queriam dizer, mas apenas tinha como certo que deveria ser coisa boa. Eu não era, como se poderia supor, um adolescente ingênuo, era sim um desinformado e incauto. Um jovem com poucas instruções.
******Dobrei o jornal já meio úmido pelo orvalho da noite e prossegui na busca do pão. Ensacolei os pães ainda quentes, brinquei com o atendente, Tõe Zoinho, e voltei para casa, guardando o achado debaixo do braço. Voltei e, chegando até a sala, com aquele aroma inebriante de café recém-passado, meu pai fumando na janela; entreguei a mercadoria e corri para a calçada do quintal para continuar a leitura. Meu pai zeloso como sempre, perguntou-me o que trazia sob o braço, disse-lhe que um jornal que achara na rua. Ele voltou para a cozinha para continuar os preparativos do dejejum, após elogiar o bom hábito de se ler jornal, e fui à leitura.
******Embora nem tudo fosse compreensível, nem as figuras dos quadrinhos tão óbvias, a leitura atraíra-me de um modo especial. Já estava tomando nojo dos burgueses e similares, mesmo sem saber quem era eles, quando a minha mãe veio assumir a cozinha e encontrou-me absorto na leitura. Perguntou a meu pai o que eu lia com tanta atenção, e meu pai respondeu que era um jornal achado na rua. Ela achou tudo muito estranho, talvez achando que era alguma pornografia, e veio ver do que realmente se tratava. Quando viu a chamada de capa, meio atônita, voltou calada para a cozinha, sem me dizer absolutamente nada, como se tivesse visto satã.
******Alguns segundos depois, senti o baculejo do meu pai, uma mão no jornal e outra em mim. Flutuando eu estava com a redenção dos operários, flutuando fiquei com a força dos movimentos do braço direito do meu pai. E ouvi aquela voz irada julgar: “você está louco?”. Pedalando no ar não conseguia responder. Levou-me até à mesa da cozinha, sentou-me como um condenado prestes a ser executado, e sentenciou: “Veja bem, isto é um crime. Ninguém pode andar por aí com livros proibidos. Eu sou o delegado e tenho que zelar pela ordem e a moralidade da cidade. Você está me entendendo? Isto é livro proibido. Coisa de vermelho, de comunista, de subversivo, de agitador! Coisa do diabo! Isto é proibido pela gloriosa! Você está me entendendo?”
******Eu respondia que estava entendendo, mas na verdade, eu não estava compreendendo nada. Segundo o texto, os burgueses tornaram-se classe hegemônica e foram oprimidos antes, e pela revolução conquistaram seu espaço. Passaram de oprimidos a opressores, e eu desejava saber onde eu me encontrava, se era burguês, oprimido ou opressor. E eis a novidade: eu não poderia saber, por que alguém proibiu, sabe-se lá por quê? Pensava comigo, que estranho!, mas não dizia nada. Meu pai continuava com aquela catilinária da defesa dos valores sociais pelo regime militar aos meus ouvidos, mas nada fazia muito sentido. Eu pensava comigo: “Um texto apenas! se os autores estão errados, não deveriam incomodar; se estão certos, somos nós que fazemos alguma coisa de errado. Como proibir? Quem tem razão?”.
******Depois de muito falatório, levou-me para assistir à incineração do material proibido. Pôs a mesa para o café e começou a contar-me uma horrenda história do ano de 1964 e dos que se seguiram, como os livros e textos impróprios, sobre sexo, religião e política foram banidos da face da terra por ordem dos generais, os salvadores da pátria. Contou-me que homens da repressão percorreram todas as casas de políticos, opositores e esquerdistas na busca dos livros suspeitos de conterem alguma impropriedade para a ideologia do regime. E que todos os encontrados foram incinerados em praça pública. Sem deixar de falar, é claro, daqueles patrícios que foram perseguidos e presos, depostos ou foragidos, por serem simpáticos às ideias subversivas.
******Mas, ao final da conversa, deu-me a relação de todas aquelas famílias que tinham filhos na alça de mira do sistema. Estudantes, professores, profissionais liberais e políticos que andavam agitando a cidade e o país por reformas políticas. E logo deixou a dúvida de que aquele ato fosse coisa dos estudantes que haviam chegado de Salvador, no sábado anterior. E foi a deixa, pois continuava encasquetado com a ideia de terminar a leitura proibida. Mas como? Talvez algum outro exemplar tivesse ficado nas ruas! 
******Ainda meio perturbado com todas aquelas histórias, acabei o café, dei uma volta pelo quintal e resolvi fazer um périplo pela cidade na busca de algum outro exemplar. Diante das dicas de meu pai sobre o pessoal subversivo, preferi passar pelas ruas onde moravam os suspeitos. Percorri toda a avenida principal, e nenhum sinal. Muita gente passava em direção ao rio da rua, coisa comum lá em dias de domingo, mas nada. Da lista, acho que já tinha visitado a porta de casa de quase todos, faltava apenas um lugar, o Alto do Cruzeiro, e para chegar lá, da Igreja Matriz onde eu estava, era só fazer a volta e subir.
******Parecia miragem de quem vagou pelo deserto em busca de água, mas, mal subi a ladeira da praça, avistei um homem limpando um ônibus todo adesivado e cheio de faixas de protesto: “Anistia ampla, geral e irrestrita”; “Diretas Já”, “Viva a Nicarágua”, “Libertem os presos” etc. Ele ia pondo abaixo faixa por faixa, adesivo por adesivo. E logo pressenti que havia achado o tesouro. Apressei o passo institivamente e cheguei a tempo de vê-lo juntar uma pilha de jornais com inscrições vermelhas: “Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos!”. Saquei um, às pressas, e fugi, como se ninguém pudesse me ver.
******Pelo caminho de volta para casa, tentava encontrar um modo de guardar o jornal sem ser notado ou de sentar para lê-lo onde não pudesse ser incomodado. E uma preocupação tomou-me de assalto. Se meu pai descobrisse o jornal, o que aconteceria comigo? Pela ira com que me tomou o outro e queimou-o, coisas graves poderiam acontecer, até mesmo de eu ser entregue às autoridades do regime. Já quase me sentia um perseguido do regime. E não podia voltar para casa. Meu pai era um preposto da ditadura e poderia cabuetar. Meu corpo ardia de pavor, e talvez fosse melhor me livrar do jornal proibido e voltar à minha paz, sem mexer com estas coisas estranhas de repressão e censura.
******Sem saber o que fazer, desviei-me do caminho de casa e tomei a direção da Baixa da Roseira, um caminho que levava a algumas comunidades afastadas da cidade e que talvez sequer suspeitassem da existência de jornal proibido ou de coisa do tipo. E fui na esperança de encontrar algum lugar onde eu pudesse finalmente concluir a leitura. Depois de muito caminhar, cheguei até a altura da Lagoa de Joaozinho, e o espírito acalmou-se como se eu tivesse me banhado na lagoa. Havia encontrado o lugar perfeito, uma velha choça que seu Elias e meu irmão usavam para caçar patos, paturis e marrecos. A choça ficava quase como uma ilha no centro da lagoa, toda encoberta de palhas, matos e gravetos, apenas com as aberturas oculares para posicionar os canos das espingardas. Se nem os animais percebiam a presença de humanos lá dentro, certamente ninguém me encontraria ali, muito menos, para ler, e, ainda que acontecesse de ser apanhado, talvez fosse mais considerado como louco do que como subversivo.
******Já se aproximavam das onze, quando abri o jornal na sombra fresca da choça. E retomei a leitura de onde parei: “Em substituição à antiga sociedade burguesa, com suas classes e sua luta de classe, surge uma sociedade onde o livre desenvolvimento de cada um é a condição do livre desenvolvimento de todos”. E prossegui avidamente. Meio dia chegou sem fome e antes de uma da tarde, havia concluído a leitura. Os desenhos e comentários dos quadrinhos deram-se algumas ideias, de que eu era verdadeiramente um proletariado ou condenado a sê-lo e que seria preciso substituir uma ditadura por outra. E voltei para casa pensando se durante toda a minha vida teria que suportar ditaduras: a do meu pai, a do Estado e do proletariado.
******Ali mesmo dentro da choça, dei fim ao jornal criminoso, longe dos olhos das críticas e dos censores. Voltei para casa com as mãos limpas e a cabeça pesada de ideias e de remorsos. Ainda cruzei com um camponês, um típico representante da classe média, tentando forçar um jumento a transpor um mata-burro, que logo viraria meu inimigo ou vítima da nossa luta de libertação. Já não tinha muita certeza de quem era quem, nem eu mesmo, só com a convicção de que era um proletariado comum.
******Cheguei em casa, meu pai repousava e minha mãe se preparava para mais um plantão no hospital. Ainda pensei em dissuadi-la a não ir ao trabalho, pois ela estava sendo explorada pelo patrão, aquele burguês desgraçado, embora não tivesse a menor ideia de quem fosse o patrão, mas o que isto importava, se burguês é tudo igual. Estava prestes a começar a revolução ali e naquela hora, mas talvez a minha mãe não compreendesse a proposta, pois não havido lido o livro proibido, e, certamente, em grupo era bem melhor. O que não faltava era facão e foice na dispensa.
******Adormeci sonhando com revoluções, ditaduras, operários, excluídos etc. Acordei na hora de ir para a escola. Durante toda a aula, eu olhava as meninas filhas de pais ricos com um dilema pessoal infernal. Bonitas, cheirosas, cabelos bem aparados, dentes no lugar etc. E buscava uma resposta, se tais preferências não era um comportamento burguês ou se não havia algum modo de conciliação, em vez de uma revolução fraticida. Demorei anos para encontrar a resposta, e descobri que não era nenhuma das duas. Hoje percebo que uma revolução aconteceu, e que não nos demos conta; que uma ditadura se estabeleceu, e que não foi a do proletariado.