
Dr. José Diniz de Moraes é paramirinhense, Advogado, músico, poeta, escritor, Procurador do
Ministério Público do Trabalho em Natal – RN
Seu João de Deus era um homem de personalidade agressiva e posições ideológicas bem conservadoras. Coisas do tipo “infidelidade feminina”, “direitos humanos”, “homossexualismo masculino”, “exploração sexual infantil” etc., era para ele, como gostava de dizer, “um caso de peia”. Não tinha, ao que parece, o mesmo senso de reprovação quanto a fatos como a infidelidade masculina e o homossexualismo feminino, e sabe-se lá porquê. O certo mesmo é que sempre trazia no coldre um trinta e oito e, a tiracolo, um punhal de trinta centímetros. Na algibeira, um corte de fumo do rolo e palha seca de milho para enrolá-lo, além de um simonte (rapé) que o fazia espirar todo o tempo.
Desde a infância, habituara-se às agruras do sertão e à rudeza dos mangues. Era de pavio curto e extremamente desaforado. Todo o desaforo morria na face de quem o desafiava. Falava alto e sempre em tom ameaçador. Onde passava, deixava um rastro de violência e terror. Era um bicho do mato. Com sol ou chuva, são ou doente, não deixava de seguir anualmente a romaria ao santuário de Padre Cícero Romão Batista, além da devoção confessa ao Beato Dom Hélder Câmara.
Contou-me um amigo na Bahia, que ele já respondera por mais de três homicídios, todos sob a alegação de legítima defesa da honra; devia algumas pensões alimentícias; estava envolvido em várias ações de investigação de paternidade e pagava várias cestas básicas em razão da lei Maria da Penha. Vangloriava-se de nunca ter sido traído pelas companheiras, e afirmava abertamente que a pena para tal delito era a morte. A confiança era para ele a relação básica de toda a convivência humana, sem exceção.
Mas seu João de Deus andava meio acabrunhado com os rumores discretos de que poderia estar sendo vítima de adultério. A esposa, segundo ele, andava muito estranha e cheia de segredinhos, o que muito o perturbava, e precisava de provas para fazer “justiça”. Ninguém era louco de abertamente fazer-lhe tal afirmação, mas sempre ouvia dos compadres o conselho para ficar mais tempo em casa. Prevenir é sempre melhor do que remediar, diz o adágio.
Uma viagem repentina tirou-o do centro dos acontecimentos, e, por força do trabalho, teve que ir até a Bahia. Estando na Bahia e antes que a notícia caísse na rede, a nova “boca do povo”, resolveu consultar um centro de macumba para se certificar. Ouvira dizer que os búzios são infalíveis, e não custava nada saber o que os deuses sabiam a respeito. Era preciso passar essa história a limpo o quanto antes.
A catimbozeira quando viu o homem naquele estado de prostração, foi logo dizendo que o estado dele era grave e que era preciso fazer uns serviços. O despacho ficaria pronto poucos dias depois, mas a impaciência tirava-lhe o sossego, e ficava imaginando se deveria ligar para casa para saber como as coisas andavam, mas não queria expor-se a ninguém com a suspeita, o que poderia ser verdade, de que estava sendo chifrado. A duros golpes, procurava resistir. Após o serviço, em caso de ser verdade a suspeita, um grande mal se abateria sobre a infratora infiel. Torcia o homem para que tudo não passasse de cisma de cabra macho.
Após o trabalho de campo na empresa, desceu o Comércio à procura de diversão e passou a noite a contar bravatas e vantagens. Já estava bem conhecido da região. Voltava sempre na madrugada para casa com os bolsos vazios e um peso insuportável na cabeça, como se chifre fosse pedra. Desse jeito, ia acabar fazendo alguma besteira, diziam os colegas. E tentava a todo o custo livrar-se da dúvida. Ali e acolá deixava escapar a suspeita da esposa.
A mulher, coitada, só vivia para o trabalho. Era uma médica bem conceituada, e muito zelosa com a casa e com o esposo. Ela já tinha percebido que o marido andava meio esquisitão, e mais grosseiro do que o habitual. Como toda a mulher, tentava compreender e relevar, atribuindo a conduta do esposo aos rudes anos de sertão, de onde ela o havia resgatado. O aperreio inexplicável do marido já a preocupava.
Num sábado em que se encontrava de folga, a mulher resolveu trocar a porta do quarto do casal, por uma porta de madeira maciça, para fazer surpresa ao esposo. Ele sempre se queixara daquela porta, uma reminiscência da época das vacas magras. E todo o dia falava nisso. Havia chegado a hora da troca definitiva dela.
Aí, como sempre o fazia, a empregada chega em casa, e grita pela patroa. Ela responde de dentro do quarto, de onde vinha um rangido estranho de madeira em movimento, que era o atrito da broca ou do parafuso com a madeira. A empregada não sabia de nada, achou estranho o barulho que vinha do quarto, e gritou novamente pela patroa, para certificar-se. E ela respondeu: “Estou ocupada, estou aqui com seu José”. A empregada levou um baita susto.
Um amigo havia viajado com seu João. Aquele, diferentemente deste, tinha problemas bem diferentes. Andava doido para livrar-se da esposa e não sabia como. O seu celular piava o dia todo. Era a esposa querendo saber o que estava fazendo e por onde andava. João de Deus zombava do amigo, dizendo que era um manicaca, um homem manobrado pela esposa. Depois de algumas lapadas de cana, no pé sujo da esquina do Pelourinho, o amigo saiu resoluto sobre como proceder com a sua esposa. Procurou o orelhão mais próximo, colocou a fixa e ligou.
“Alô!”, atendeu a empregada da casa de seu João de Deus. “Maria, é você?”, perguntou o amigo. “Sim, dotô, sou eu!”. “Minha esposa está aí?”. “Tá sim!”, respondeu a empregada toda apreensiva, pois a hora e o jeito da fala de bêbado não eram coisas habituais do patrão. “Será que ele sentiu que a patroa está com homem no quarto?”, pensou ela, sem saber o que fazer ou falar. E prosseguiu a conversa. A empregada era da região de João de Deus, e cultivava os mesmos valores dele.
“Chama a minha esposa aí”, pediu o amigo. “Só um instante”, falou a empregada toda perdida. Foi até o quarto e chamou pela patroa. A patroa respondeu que não poderia ir naquela hora, que ligasse depois, e não perguntou quem era nem a empregada havia dito. Como boa pessoa mandada, a empregada voltou ao telefone e disse: “Dotô, ela está ocupada, disse para ligar depois!”. O homem se assustou, nunca tinha acontecido nada disso. Era ligar, e ela vir correndo atender. Alguma coisa estranha acontecera.
“Como assim, ocupada?”, quis saber o homem. “Dotô, ela está com um homem no quarto e com a porta fechada, parece coisa nova!”, disse a empregada com toda a ingenuidade ou malícia do mundo. O homem suspirou fundo, pensou no que poderia estar acontecendo. “Homem no quarto”, “porta fechada”, “menino novo”, “moça bonita” etc. Era a fórmula do inferno. Estava sentindo-se como um “pai de moça”, o último a saber das coisas. Vai ver estava sendo traído há muito tempo e não sabia, e isto explicava aqueles telefonemas insistentes, para saber onde se encontrava, e, como tinha viajado, aproveitando para aprontar, pensava o homem a beira de um ataque de nervos.
A empregada aguardava impaciente do outro lado da linha. “Dotô, o senhor está aí?, insistia ela, enquanto o homem engolia à palo seco a arrogância e o orgulho de homem traído. Ela aguardava impacientemente as ordens do patrão. É claro, a empregada acreditava piamente que estava falando com o seu patrão. Do outro lado da linha, o homem não sabia ainda o que fazer. Ouvia-se a respiração ofegante e sôfrega do vacilação. Lembrou-se do brocardo nordestino, “bater é pouco, matar é muito, então é melhor deixar prá lá”, mas não se convenceu, e tomou uma decisão.
“Maria, você quer ganhar 5 mil para matar este cabra da peste?”, disse o homem todo decidido. “Dotô, só 5 mil, prá matar um home?”, respondeu a empregada toda interessada na oportunidade de livrar o salário de meses de trabalho. “Tudo bem, tudo bem, 10 mil então”, contrapôs o homem. “Não, dotô, 20 mil, pelo serviço!”, soou o sino dos niqueis do outro lado da linha. “Então tá, não deixa este cabra viva. Quando eu chegar eu te pago!”, concordou o homem, prosseguindo com as instruções.
“Você sabe a gaveta onde guardo o meu revolver?”. “Sei sim, senhô!”, disse a empregada. “Então vá, pegue-o e dê seis tiro no cabra, deixe a mulher viva que quero comer ela na unha!”, foi a instrução do marido. “Só um instante!”. Maria saiu, largou o fone, abriu a gaveta, maquinalmente, tirou o revólver, arrombou a porta e deu quatro tiros no marceneiro, que estava atrás da porta. Do outro lado, o homem ouviu o zumbido sequenciado, como se a moça fosse pistoleira. Ela retornou ao telefone.
“Dotô, tudo pronto, este já era!”, informou a empregada. “Então agora pegue o corpo e enterre lá no quintal!”, ordenou o homem do outro lado da linha. “Mas, dotô, isto não é possível!”, resignou-se a empregada. “Como não é possível, filha de Deus?”, tentou saber o homem, mas mudou de ideia. “Maria, volta lá e mata a minha mulher, também, te dou mais vinte paus!”, reorientou. A empregada recarregou o revólver, voltou ao quarto; a mulher estava paralisada e em choque, pelo ocorrido.
Como a mulher não parecia apresentar risco, totalmente paralisada, e para evitar o estrebuchamento como aconteceu com o marceneiro, a empregada foi mais piedosa, aproximou-se, mirou na cabeça, à queima roupa, e despachou a patroa. Ela tombou sem gritar, como se já estivesse morta. Do outro lado da linha, o homem ouviu a zoada do tiro e comemorou. Depois, aguardou que a empregada viesse relatar o ocorrido. E ela rapidamente voltou. “Esta também já era, dotô!”. “Ótimo, agora vamos esconder os corpos, enterrando-os no quintal!”.
A empregada não entendia a insistência do patrão e tornou a relembrar ao suposto patrão de que isto não seria possível. O homem enervou-se: “Mas como não é possível, mulher, basta abrir uma cova rasa no quintal e jogar os troços!”, retrucou o homem. “Dotô, como eu ia dizendo, isto não é possível, aqui é um apartamento, não tem quintal!”, respondeu a empregada, achando que a loucura do homem fosse a cana. “Opa! Opa! Opa! Ligação errada, (…)!”, disse o homem afobado. E o homem bateu o telefone tão rápido como quem rouba. A empregada ainda tentou perguntar sobre o dinheiro, mas já era tarde. O homem desceu a Praça Castro Alves como se nada tivesse acontecido. E um grande mal se abatera sobre a família de seu João de Deus. (José Diniz de Moraes, Natal/RN, 26/11/2015)